Ironia Socrática em Kierkegaard, Melville e Camus.

Amigos,

Segue vídeo de parte de minha pequena fala na Biblioteca Kierkegaard em Buenos Aires. Meu espanhol é muito ruim e eu dei uma enrolada no idioma.

Curtam o canal!

 

Anúncios

O misterium Pansophycum

 

O misterium Pansophycum possui como orientação ser um tratado de Jacob Boehme a respeito do mistério da criação (do universo até o exercício mágico em si) determinando as diferenças qualitativas entre desejo e vontade, Deus e natureza, intelecto e instinto, homem e sociedade, Cristo e Lúcifer. Em tal diferença desde a grande tarefa do magista. Todo magista é um criador, e para tanto, não deve se deixar dominar por forças alheias a si, mas sim, compreender as forças que regem a criação e dominá-las.

Primeiro Texto

O absoluto ( o sem fundo) é uma permanente ausência infinita (nesse caso, não é caótica, como defendiam os gregos, mas anterior ao caos). Sendo nada, deseja potencialmente o todo. Esse desejo é o próprio ato cego da criação. O desejo é o vir-a-ser que não alcança o seu termo nunca. Cada criação do nada, nada é, nesse aspecto, incorpora em si mesma o desejo incessante de vir a ser do todo (a parte é idêntica ao todo). Magia é criação a partir da Vontade (razão/ Deus) do magista sobre o desejo cego da natureza.

Segundo Texto

O desejo do nada em ser, só o nada pode desejar. É nesse aspecto que Boehme afirma que o desejo sai de si para retornar a si. Ele se duplica qualitativamente, isto significa, como o nada deseja a alteridade (sem contudo haver qualquer alteridade, desejando apenas a si mesmo), sai de si (e nisso já não é si mesmo) como uma qualidade distinta. O desejo cego da natureza se exterioriza de si como Vontade, razão, Deus, e retorna para si mesmo como a ordem de toda criação. Nesse aspecto Deus e natureza correspondem a qualidades simultâneas de um mesmo princípio absoluto, e por isso não se excluem. Deus, razão ou Vontade é a expressão subjetiva da natureza ou desejo objetivo.

Terceiro Texto

Deus é o conhecimento eterno do absoluto. Intensão e Vontade. Por isso Boehme identificá-lo à figura do mago. Por outro lado, a essência de tal conhecimento é a presença. É a própria vida absoluta encerrada em si mesma, por isso, um nada. Essência incognoscível de Deus, desejo. Por isso Boehme identificá-lo à figura da magia, força universal que permeia o Todo (Eliphas Levi denomina Luz Astral). Deus é o mago que ordena e determina na natureza cega um propósito.

Quarto Texto

Deus e natureza não são elementos distintos, mas simultâneos. Deus é a natureza que se revela subjetivamente. A natureza corresponde a força cega e objetiva que é ordenada. Objetivamente natureza, subjetivamente Deus.

Quinto Texto

O desejo sai de si como Deus, mas retorna a si no processo de ordenação da natureza. Nisso, há uma projeção. A ordenação corresponde uma compreensão, que não é a coisa em si, mas sim uma possibilidade dela instaurada na realidade. Deus se conhece refletindo-se na natureza, ordenando-a. Entretanto, não pode confundir-se com esse conhecimento, com essa ordem. Deus não é a ordem da natureza, mas o princípio que ordena. Entretanto, essa distinção (entre Deus e o conhecimento de si), estabelecida posteriormente, determina o que Boehme denomina turba, desordem, caos, conflito. A grande questão levantada por Boehme nesse aspecto é explicar como a ordem é simultânea ao caos na natureza.

Sexto Texto

A turba é o que determina o conflito entre todos os seres. Cada vontade particular dos seres possui também a sua turba. Cada ordem específica dos entes também possui o seu conflito com o Todo. Há portanto, uma relação simultânea entre identidade e alteridade, ordem e caos. Todo o poder temporal segundo Boehme se estabelece no conflito. Em tal conflito, a parte pode querer dominar o todo ou separar-se do todo. O primeiro aspecto Boehme identifica com a monarquia ou o Império (governos ideais segundo ele pois correspondem a um retorno – cada um a sua maneira- à unidade). O segundo Boehme denomina “abismo” e pode corresponder a uma referência indireta a democracia e seu ideal de representatividade por intermédio das individualidades em ascensão, mas que encontrará o seu fim no futuro.

Sétimo Texto

O movimento do Uno ao múltiplo e da simultaneidade entre objetivo e subjetivo, Deus e natureza, também determina o surgimento das línguas e idiomas. É reconhecido por Boehme apenas um único idioma, o da natureza, este porém é simultãneo a uma compreensão, própria ao Espírito de Deus. Posteriores a estes Boehme reconhece três outros idiomas fundamentais, onde todos os outros são oriundos,num movimento do objetivo para o subjetivo, da língua da natureza para a compreensão divina desse idioma: hebraico, grego e latim. Segundo Boehme 72 línguas são oriundas destas cinco principais. As línguas possuem sua origem no demoníaco interesse da Vontade (razão) tornar-se particular na ordem de cada ser. É assim que interpreta o mito da torre de Babel:

“Voltando-se para sua própria razão individual, perderam então seu condutor, confundiram com isso sua razão e deixaram de compreender sua própria língua [universal]”.

Oitavo Texto

Nele Boehme trata da distinção entre paganismo e judaísmo. Ambos idólatras. O paganismo sendo expressão do múltiplo, caótico e conflituoso impulso da natureza e o judaísmo a expressão do Uno, da ordem, da Vontade de Deus. O movimento do uno ao múltiplo, na história das religiões constitui a própria origem do paganismo. Segundo Boehme, um movimento do judaísmo (uno) ao paganismo (múltiplo) apenas tornou-se possível por uma “degeneração” do próprio judaísmo. Degeneração que corresponde a uma transição: uno na forma, contudo, múltiplo no conteúdo.

“Ele sai da Unidade para a multiplicidade, que é uma confusa Babel, e sua boca hipócrita, com a qual dirige boas palavra, louvores e solenes promessas ao Espírito da Unidade, é um anticristo, que fala uma coisa e age de maneira contrária” (pág. 103).

Nono Texto

A razão universal por intermédio da turba fundamenta a razão particular. Entretanto, esta última encerra-se em si mesma fundamentando o demoníaco. Boehme portanto, identifica duas espécies de magia: Uma que se estabelece na unidade e é divina, outra, múltipla, é demoníaca. Auto-avaliação sobre os interesses do desejo individual corresponde a uma profunda introspecção, que segundo Boehme é fundamental para determinar os caminhos tomados pelo homem em direção ao divino ou demoníaco. Há explícita defesa de uma espécie de ascetismo, no movimento exercido do múltiplo em direção ao uno. Segundo ele, os influxos astrais nos tornam escravos. O grande trabalho do magista é tornar-se livre desses influxos, é isso significa, controlar seu próprio destino. Ora, não há nada mais thelêmico do que isso! Isso se dá através da adequação dá razão individual à razão universal que ele denomina VONTADE ou DEUS. Para isso, começa explicando como a razão individual tornou-se individual, isto é, separada de Deus e amplia tal conclusão na forma de compreender toda a criação, e nisso ele tradicionalmente cristão.

Bibliografia 

BOEHME. Jacob. A Revelação do Grande Mistério Divino. Ed. Polar. 1998. págs. 81-109.

Badiou Contra as Teleologias Políticas

foto-2016-12-29-18-03-56-179692624602467-funflyship

As esperanças políticas já nascem fracassadas.

É desalentador envelhecer sendo testemunha da sucessão de inúmeras ideologias políticas e seu ciclo natural de nascimento, envelhecimento e morte. Talvez, uma definição sucinta do que foi o século XX. Muita paixão que durou pouco, restando apenas a melancólica sensação de abandono e ausência de sentido. Circunstância propícia a um auto-exame típico de quem atingiu certa maturidade, contudo, sem nenhum tipo de perspectiva: “O que foi que eu fiz?” “Qual o sentido de tudo isso?”

O que é real?

É de onde parte Alain Badiou em seu livro Em Busca do Real Perdido (Ed. Autêntica. 2017). Filósofo marxista de orientação leninista, seu livro, contrariando a suspeita banal pelo qual o título parece evocar (de um livro especificamente sobre metafísica e ontologia), pretende determinar um acerto de contas particular com a esquerda, evocando indiretamente predecessores como Jacques Rancière (O Ódio à Democracia. Ed. Boitempo. 2014) e T. J. Clark (Por Uma Esquerda Sem Futuro. Ed. 34. 2013).

O que é Real?

Segundo Badiou o termo parece evocar no senso comum certa propriedade no qual não podemos evitar por qualquer meio. O real portanto coincide com certa condição de fatalidade. Conhecer tal condição equivaleria a uma falsificação, posto que o real, enquanto fatalidade sempre se impõe resistente a mim. Sendo assim, não é possível reduzir o real a um conhecimento objetivo específico, científico e racionalizável. Paradoxalmente evoca Platão, no qual possui grande estima. Para conhecer o real é preciso sair da caverna, e isto significa, colocar em suspensão, os diversos saberes que representam nossa noção ocidental de realidade.

É nesse sentido, segundo Badiou, que a filosofia enquanto guarda da ratio (para usar uma expressão heideggeriana) posiciona-se contra a realidade e a favor de uma falsificação. Entretanto, o dilema consiste em saber se um conhecimento do real enquanto fatalidade, imposição, poderia determinar ou não uma transformação da vida. O real é uma imposição que não pode ser diretamente conhecida, por outro lado, é imediatamente vivida. Essa ambiguidade entre conhecimento e experiência vivida, determina uma oposição entre uma realidade e outra. Uma imaginária, a outra, cruelmente imposta. Uma que é máscara, e outra, por ser incerta, é máscara da máscara. Há uma bela analogia com O Doente Imaginário de Molliére.

O que constitui nossa realidade política?
Aqui se revela a grande intensão de Badiou.

É amplamente reconhecida no ocidente os interesses de uma forte democratização política. Nossa realidade política (parece ser) é a democracia. Todavia, seu grande opositor, por outro lado, não constitui os grandes regimes autoritários do passado, mas sim, uma outra concepção de democracia, amplamente divulgada e sustentada pelo capitalismo de mercado. A aposta feita por Badiou na democracia consiste na defesa de uma igualdade que se impõe ao capitalismo. O capitalismo não sobrevive com igualdade, mas sim com competição. Por outro lado, reage contra tal imposição determinando uma outra concepção de democracia. Há uma democracia real velada por uma democracia imaginária. Nesse aspecto, Badiou não difere muito de outros partidários da esquerda contemporânea. O marxismo tradicionalmente sempre acreditou que a iniciativa da luta de classes e a história determinariam a emancipação dos trabalhadores. Badiou não acredita mais no fatalismo da história. Não a justifica mais como nosso referencial de realidade política. A história não está comprometida com a emancipação, mas sim com violência e por meio dela tudo foi justificado.

Sua proposta é de uma esquerda apaixonada que não pensa mais em seu futuro, mas apenas em seu presente. Pensando se tratar de um militante de longa história, que presenciou todo o desfortúnio de sua paixão, talvez seja uma espécie de consolo entre as ruínas de um sonho.

22424_815586448522789_7296220051487844448_n

Sobre a Contemplação Divina em Jacob Boehme

Esboço para uma leitura de Boehme

*Diogo Santana

A razão humana consiste de uma subjetividade encerrada na temporalidade. É por esse princípio que determinará causas empíricas para todos os fenômenos que conhece e todos os problemas que levanta. A existência de Deus e o sofrimento dos bons torna-se um problema insulúvel para a razão, pois a razão, situando o problema do conhecimento à empiria, ao refletir sobre si mesma, pode intuir uma origem, uma causa primeira, por outro lado, não pode justificar uma origem transcendente na maneira como fundamenta o conhecimento, de si e do mundo.

A razão dirige-se ao empírico. Essa é a sua natureza. Entretanto, é na investigação de si mesma que se torna justificável seu fundamento metafísico, transcendental, que por outro lado não pode reconhecer. Esse é o impasse que se estabelece entre a existência de Deus e uma moral universal, averiguada por uma razão que justifica todo seu conhecimento através da empiria.

A razão se limita ao empírico, ou seja, às relações de causa e efeito, entretanto, não pode responder tudo a partir de tal perspectiva (como a existência de Deus e o sofrimento dos bons), sendo assim, vive em profunda inquietação e sofrimento, e isto significa, exige deixar de sofrer. Se o homem sofre porque sua razão encontra um termo (o mundo empírico), a ausência do sofrimento estaria na plenitude da razão que transcende á empiria.

A “desamparada razão”, chegando ao seu limite reconhece um fundamento metafísico para si mesma e para a moral, contudo, é incapaz de definir que fundamento é esse. Nesse aspecto concebe que o mal pode ser resolvido e a inquietação da razão suspensa. O homem não deseja sofrer porque acredita que o sofrimento pode ser eliminado através do princípio metafísico que a fundamenta.

Por inquietar-se diante da impossibilidade em justificar empiricamente todas as coisas, a razão volta-se sobre si mesma, seu fundamento e origem. A justificação empírica deixa de ser um critério (pois o fundamento da razão não é racional). A razão é um princípio de ordem imanente. Deus e uma moral universal, princípios de ordem transcendente, e que por isso, envolve a razão. O imanente não pode alcançar o transcendente, e por isso se inquieta, sofre. Porque então Deus permite essa diferença qualitativa e por isso mesmo, o sofrimento? Segundo Boehme, a consciência é ela mesma uma divisão. Sem diferença qualitativa apenas uma ordem, e apenas uma ordem não haveria consciência. O sofrimento é portanto inerente à consciência, cuja natureza é a cisão entre o transcendente e o imanente.

Sem essa diferença qualitativa não haveria consciência, tampouco conhecimento e sofrimento. Para Boehme todo conhecimento, vontade, percepção, é fruto imediato de uma oposição, pois “somente uma coisa una pode conhecer uma única coisa”. Deus cria para que tenha uma oposição a si para que tenha conhecimento de si (e isto significa que Deus também sofre).

A vida consiste em luta, e isto significa, numa séria infinita de oposições permanentes, que por sua vez se direigem a algo oposto a elas (que é Deus). O mesmo princípio é extendido na formulação de uma epistemologia. Muitos são os pensamentos, porém a mente (seu centrum) é única. Muitas são as vontades (boas ou más) contudo, esta também possui o seu centrum (A Vontade que rege todas as vontades). Boehme denomina contrarium às multiplicidades (que vivem em constante oposição) que orbitam em torno de um núcleo regulador (centrum).

Fundamentos de Uma Razão Transcendente

Como a razão, que é temporal e empírica é capaz de alcançar o atemporal e o supra-sensível?

O homem não foi criado originalmente para a temporalidade, mas sim para a eternidade. Por isso, é capaz de transcender os limites de sua própria racionalidade e sensibilidade. “A vida do homem é uma forma {contrarium} da vontade divina e foi insuflada por Deus na imagem criada no homem”.

O homem é um ser que originalmente mantêm o equilíbrio (ou síntese, que Boehme denomina temperamentum) entre o eterno e o transitório, entre o finito e o infinito. O diabólico corresponde em Boehme ao contrárium que tornou a síntese imperfeita, o que significa, que fez o homem ter consciência de si exclusivamente no finito. Atributo da razão.

Temperamentum é equilibrio, harmonia, ordem, razão divina, paraíso, imagem de Deus. O rompimento com o temperamentum consiste numa subjetividade encerrada em si mesma, consciente do plural (do diferente e da diferença) e por isso dos valores (do bem e do mal), indo da unidade à uma multiplicidade crescente, e por isso, em oposição, combate.

A vida humana é oposição (contrarium) a vontade de Deus (centrum) para que Deus tenha consciência de si. Uma das manifestações desse contrárium é o demoníaco, isto é, consciência de si exclusiva de forças finitas, plurais e combatentes entre si. A razão empírica é uma de suas manifestações. Originalmente a vida humana é um contrárium a vontade divina que por outro lado não se opõe radicalmente a ela, mas sim, corresponde a uma extensão. Um temperamentum. (O homem é oposição a Deus posto ser criatura dele, logo, seu diferente, seu contrárium, por outro lado, Boehme ressalta que originalmente esse contrárium era extenso a ele, tal como a cabeça e o braço fazem parte do mesmo corpo, determinando um temperamentum).

Do Uno ao Múltiplo

Boehme entende que o problema do conhecimento constitui uma ordem de relações entre o Uno e o Múltiplo. Nesse sentido, é herdeiro de toda uma tradição neoplatônica, incorporada ao cristianismo, e em seu caso específico, ao luteranismo. Quando Deus cria, conhece a si mesmo. O Verbo é o primeiro movimento da criação, a revelação da Vontade insondável da divindade, a exteriorização que Deus faz de si mesmo. O Verbo é a revelação que Deus faz de si para si. Através do Verbo o Uno se identifica com sua criação. Através do Verbo o uno se introduz no múltiplo. O mundo sensível é o meio qualitativo pelo qual Deus se reconhece. O mundo visível é a extensão do Verbo em atribuições qualitativas, ou seja, as qualidades do Verbo divino correspondem e se extendem às atibuições do mundo físico.

“Em tal contrarium da Vontade divina, devemos entender duas espécies de vidas, uma eterna e outra temporal, mortal. A vida eterna está no eterno, origina-se do Verbo eterno e reside no fundamento do eterno mundo espiritual, fundamento esse que é o mysteruim magnum, o contrarium divino. Ele é a vida intelectiva que está no fundamento do fogo e da luz eternos” (III. 15).

Bartleby, o Escrivão e a Filosofia

O autor deste humilde blog possui um rosto.

E muito embora se negue a mostrá-lo sempre, eventualmente tem adquirido o hábito de expressar-se, além de por escrito, em vídeo.

Não tenho a pretensão de tornar-me um youtuber profissional, (posto que em meio a crise financeira, produzir videos para a internet tornou-se fonte de renda), menos ainda reside em mim as qualidades necessárias para se tornar um filósofo midiático (estou muito longe disso). Fiz um pequeno comentario em vídeo ao conto “Bartleby, o Escrivão” de Herman Melville, acessível no youtube aqui.

Espero que gostem do vídeo!

15823096_1193714214043342_1188942261795784348_n

Marxismo e Subjetividade

Em sua palestra O Existencialismo é um Humanismo de 1941, Sartre, de maneira apologética, ao argumentar contra algumas críticas feitas por católicos e marxistas a sua filosofia, inicia uma aproximação teórica entre seu pensamento e o de Karl Marx. Sendo assim, procura contestar a concepção equivocada de muitos marxistas que até então interpretavam o existencialismo como uma espécie de quietismo, de filosofia contemplativa e por isso burguesa, que tem em vista uma subjetividade pura, logo também, idealista. O existencialismo, ao partir da premissa de que a existência precede a essência, tem a subjetividade como ponto de partida, mas não como limite, isto significa, que o homem existe antes de poder ser definido por qualquer conceito. A definição pressupõe originalmente uma liberdade radical, porém engajada, ou seja, delimitada por uma cultura, uma classe e uma situação histórica determinada. Que o homem escolhe a partir do seu mundo, ou seja, da totalidade de possibilidades que se apresentam diante dele. Escolher a partir de seu mundo significa que o homem está fora de si mesmo e “projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz existir o homem e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele pode existir”.

5.0.2

O homem é projeção exterior de si mesmo. Esse é o ponto no qual Sartre iniciará seu diálogo com o marxismo. Posteriormente em Crítica da Razão Dialética (1960) e O Que é Subjetividade (conferência de 1961, realizada no Partido Comunista Italiano). Essa aproximação determina antes, uma revisão de todo o instrumental conceitual, tanto do comunismo quanto do existencialismo. Tal aproximação possui como orientação para Sartre em desenvolver uma interpretação marxista da subjetividade. Nesse aspecto, contesta algumas ramificações heterodoxas do marxismo, como o de Lucaks por exemplo, que justificavam um materialismo radical. Para Sartre esse tipo de postura compreenderia um idealismo objetivista, posto que o homem não participa de sua construção.

Essa relação implica um problema epistemológico e posteriormente ontológico. Epistemológico porque o ser que pensa a si mesmo sempre pensa a si mesmo como objeto e não como sujeito que é, sendo assim, pensa outra coisa diferente dele. “Se a subjetividade é o não objeto, se ela escapa como tal ao conhecimento, como podemos afirmar verdades a seu respeito? (…) O conhecimento do subjetivo tem de fato algo destruidor para o próprio subjetivo (págs. 35 e 37)”. Em outras palavras, apenas se conhece o que não é mais atual. É possível então se falar em subjetividade sem torná-la um objeto? Isto significa distingui-la de um saber e como tal é vivência, ação, práxis. “Ou seja, o essencial da subjetividade é de ela só se conhecer por fora, em sua própria invenção, e nunca por dentro. Se ela se conhecer por dentro, está morta; se ela for decifrada por fora, então está plena, torna-se com efeito objeto, mas ela é objeto em seus resultados, o que nos remete a uma subjetividade que,  por sua vez, não é realmente objetivável” (pág. 54). Se a subjetividade apenas se reconhece como tal no exterior, ela é exterior a si mesma, isto é, pura projeção:

E é desse modo que se deve, portanto, conceber a subjetividade, ou seja, que ela é perpétua projeção. Do que? Na medida em que é uma mediação, só pode tratar-se da projeção de um ser de aquém sobre o ser de além. O que nos dá então a possibilidade de compreender em que a subjetividade é indispensável para o conhecimento dialético do social (…) Eles projetam, precisamente nessa vida histórica, o seu ser, mas eles o projetam em função da maneira  como eles mesmos estão inseridos, eles criam, a cada momento, a singularização, o que é precisamente o modo de vive-lo cegamente e em contradição com o seu próprio passado, é, portanto, um universal singular ou uma singularização universal (págs. 55-56).

A subjetividade é, portanto, projeção de um ser sobre outro. Projeção sujeita a maneira como vivem, e vivem a partir da projeção, numa relação dialética que Sartre concebe apenas como fenômeno totalizante que escapa ao conhecimento, visto participarmos dele. Nesse sentido a dialética não corresponde a uma lei, mas sim, onde por ela podem ser criadas leis ou conjunto de leis que interpretariam o fenômeno.

Bibliografia

SARTRE. Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Ed. Abril Cultural. 1978.

_____________. O Que é a Subjetividade?. Ed. Nova Fronteira. 2016.

3c721873ce6348379fddb5e9059119304zYD6t

Sociedade do Cansaço

 

Desde Platão é bem conhecida a identidade e analogia entre a parte e o todo, o indivíduo e a coletividade. Byung Chul Han filósofo coreano radicado em Berlim, inspirado em tal relação procura determinar as origens dialéticas para uma já em curso sociedade do cansaço.

Em Violência Neuronal, argumenta que essa identidade entre indivíduo e meio social, é útil e bem pertinente para a compreensão das transformações tanto sociais quanto individuais. Nesse aspecto, sugere um paradigma imunológico que predominou até fins do século passado. Nesse modelo procura-se distinguir precisamente o igual do diferente, o amigo do inimigo, o nacional do estrangeiro, o bem do mal, a saúde da doença, louco do são. Como consequência, é uma sociedade de prevenção. Segundo o filósofo coreano, esse tipo de sociedade tem sido substituída por um paradigma neural. O risco não está mais na ameaça de invasão aos sistemas, mas em sua pane interna cuja origem é superaquecimento através de hiperatividade, explicando assim o porque em nosso século ser recorrente problemas de índole neurológica e psíquica: depressão, déficit de atenção, transtorno obsessivo-compulsivo e etc.

Em Além da Sociedade Disciplinar, deixa claro como o paradigma imunológico pode ser descrito nos termos de uma sociedade disciplinar em termos foucaultianos. Que este tipo de sociedade de prevenção e controle está sendo substituída por uma sociedade do desempenho.  Desempenho que se estabelece em termos positivos como produtividade e sucesso, e que para tanto, necessita exigir cada vez mais do indivíduo, tal como em Metrópolis, clássico do cineastra austríaco Fritz Lang.

Como consequência, em O Tedio Profundo procura descrever como essa nova exigência produz compulsivamente uma sociedade de fracassados e gente insatisfeita, depressiva e melancólica que para aumentar seu desempenho necessita compulsivamente de medicação e estimulantes dos mais diversos. A necessidade de estímulo para uma sociedade sem estímulo algum. Na sociedade do desempenho o valor da mão de obra e determinado pela capacidade em executar várias tarefas ao mesmo tempo. É uma sociedade multi-tarefal e que por isso exige pouca (ou nenhuma) capacidade de reflexão, apenas reprodução metódica e mecânica. Essa ausência de reflexão nos identifica com os animais e explica, segundo Byung Chul Han, os motivos para uma sociedade cada vez mais erotizada, impulsiva e violenta.

Em Vita Activa, inspirado em Hanna Arendt, descreve como, segundo a filósofa, o “homem moderno (…) estaria passivamente exposto ao processo anônimo da vida”, inibido de toda capacidade para agir, onde todas as suas atividades estão reduzidas ao patamar do trabalho. Byung critica Hanna Arendt na constatação de que seu conceito de vita activa (vida de ação­) se aproxima consideravelmente com o sujeito hiperativo e estimulado dos dias atuais. Inicia, portanto, uma longa apologia ao tédio como instrumento de reflexão, de pausa e antecipação da ação.

O tédio enquanto instrumento de reflexão implica em demorar-se para a ação, mas não a negação da ação. Esse tipo de postura é determina uma outra maneira de ver. Exige uma Pedagogia de Ver.

Por fim, sintetiza essa série de relações metodológicas em dois tempos. Em O Caso Bartlheby, tipifica o conto de Melvilles como uma perfeita descrição do modelo de uma sociedade disciplinar, onde o homem é completamente reduzido a animal laborans, a força de trabalho, seguindo o paradigma imunológico. Nesse caso são seus personagens a expressar certa ambiguidade com o meio, expressando uma série de problemas psicológicos, antecipando assim outro paradigma social.  A exceção está no próprio Bartlheby e sua curiosa propriedade em suspender tragicamente essa condição em seu “Prefiro não”. A partir dai Byung Chul Han se dedica a uma longa contestação a interpretação feita por Agamben sobre o conto, onde Bartleby é avaliado através de uma perspectiva teológica e messiânica. Posteriormente dedica-se à Sociedade do Cansaço como paradigma sociológico presente, mas também futuro. É o que somos e o que nos tornaremos. Um projeto em curso.

Um livrinho com uma linguagem clara e bem acessível, com uma temática bem conhecida, cuja originalidade consiste na síntese entre seus elementos já bem conhecidos entre nós.

byung-chul-han-644x362

Bibliografia

AGAMBEN. Giorgio. Bartlheby ou da Contingência. Ed. Autêntica. 2015.

CHUL HAN. Byung. A Sociedade do Cansaço. Ed. Vozes.2016.

PLATÃO. A República. Fundação Calouste. 1997.

LANG. Fritz. Metrópolis. 1927/2010.

Hannibal e o Poder Sobre a Carne

tumblr_static_9ys186ku774sw4soo88swcc4o

Há em nós certa proximidade com a crueldade. Que fascina ou repulsa. Que nos identifica com ovelhas ou lobos, vitimas ou seus carrascos, contudo, que não nos deixa indiferentes: seja, talvez pelo dualismo moral no qual a maioria das consciências estão situadas e limitadas, ou até mesmo, pelo desejo em superar essa dualidade.

A série Hannibal da NBC, muito embora cative os já admiradores da trajetória do serial Killer Dr. Hannibal Lecter, foge do já consagrado esteriótipo do psicopata dissimulado. Hannibal nos dá a impressão de ser aquele que em primeiro plano transita entre dois mundos: um mundo de perfeita ordem e harmonia, onde estão situadas sua erudição, capacidade de sedução, bom convívio social e fina empatia. Qualidades que o colocam acima de qualquer suspeita. Por outro lado, transita também por um mundo de caos, o plano no qual, identificado com o nada, assume ele mesmo a figura de um criador, de um deus, onde as regras morais vigentes, criadas por outro deus, perdem a validade.

Há desse modo um plano teológico impossível de ignorar. Hannibal, assim como Deus, se identifica com ele enquanto criador, e enquanto criador, nenhuma regra prévia ou moralidade lhe está sujeita. Contudo, não se trata de uma identificação gratuita: assim como todos os homens, ele vive num mundo de leis e moral criadas por outro deus, não oposto, mas igual a ele. Sua intensão portanto, é uma criação a partir do subterrâneo, uma subversão.

hannibal4

Aspectos que são iluminados pelo andamento da série.

Will Graham, investigador especial do FBI, introvertido e dotado de uma imaginação fértil e calculista, possui uma característica peculiar que o torna indispensável em sua rotina investigativa: ao analisar os dados de um crime, se coloca mentalmente no lugar do criminoso a fim de determinar como se estabeleceu o método do assassinato. Esse tipo de comportamento o torna cada vez mais emocionalmente instável e sob supervisão de um psiquiatra. É quando aparece em cena o Dr. Hannibal Lecter, que identifica em Will um potencial psicopata.

A relação que se estabelece entre médico e paciente, nada mais indica, da parte de Hannibal, um caráter iniciático, o que significa, morrer para um mundo e nascer para outro. Plano bem característico das escolas de mistério. Esse tipo de postura irá guiar basicamente as duas primeiras temporadas da série, onde na primeira, o objetivo de Lecter é destruir as concepções tradicionais de moralidade de Will, incriminando-o por uma série de assassinatos que outrora investigava. Na segunda temporada, fazendo dele um aliado, buscar inocentá-lo de seus crimes. A ironia consiste em que “renascido” Will irá voltar-se contra seu criador, aliando-se a ele a fim de incriminá-lo.

Enquanto amoral, Hannibal parece ser de igual modo, bissexual. O desfecho da segunda temporada deixa elementos que indicam isso (como a última conversa entre Will e Hannibal, que parecia, de forma bem nítida uma briga de casal). Curioso como, pelo menos durante as duas primeiras temporadas Hannibal evita matar mulheres. A única em que assassina cruelmente, é a agente Beverly Katz por descobrir seu segredo, mas no geral, costuma esconder suas vítimas femininas, a fim de que sejam dadas como mortas e apenas em tempo oportuno revela-las vivas. Talvez uma referência a irmã, morta por canibalismo.

Para Hannibal, todo ato de criação é um ato de violência contra o que já está instituído. Sendo assim, não há regras prévias para o ato de criação, não há moralidade. Deus é violento enquanto cria, de igual maneira, o homem enquanto sua criatura. A moralidade portanto, enquanto instrumento de passividade (de paz entre os iguais) inibe o processo criador. Todo homem que não é um criador, um deus, é um animal, uma besta. Um porco em sua categoria. Conotação de certa forma aristotélica-nietzscheniana, deixando bem claro as posições de caça e caçador.

O poder sobre a carne é um tema central em toda a série, origem das cenas de violência extrema, canibalismo e tortura requintada. Hannibal é justamente sobre a relação do poder com os corpos, e como essa relação pode subverter nossos padrões tradicionais de moralidade, segundo determinadas necessidades, uma temática cara a Foucault por exemplo. É por isso que a série deixa bem explícita a possibilidade de todos os que possuem certa autoridade sobre o corpo de outro, tornarem-se psicopatas em potencial, tal como médicos, juristas, psicanalistas, policiais e etc.. E como toda relação social se estabelece minimamente com domínio de um corpo sobre outro, isso implica afirmar que todos somos psicopatas em potencial, reprimidos antes por uma moral. Que o estado original de cada homem é a violência e o caos, não o oposto.

 

hannibal

 

O “Olho” de Bataille

22362703346_356325cffb_k.jpgAo abandonar o céu das abstrações ideais, a filosofia dedicou-se a ocupar o inferno do corpo, sua potência e inúmeras possibilidades, o que representa uma transformação radical em sua própria natureza; posto que agora, sozinho no mundo, sem Deus e uma alma imortal, o que todo homem apenas tem diante de si é seu próprio corpo, e isto significa, sua carne, ossos, sangue, fezes, urina, sêmen, fluido vaginal, imundícia de toda espécie e uma infinidade de odores. Pensar desse modo, não significa mais ascender, mas descer ao mais baixo possível. É nesse aspecto que muitos filósofos optam hoje pelas arqueologias.

Sem a alma de um deus, cabe ao homem resignar-se em sua condição de besta. Algo difícil até mesmo para os de caráter mais forte. É nesse aspecto que o absoluto configura-se, outrora metafísico, agora, na irredutibilidade do corpo, assim como o sagrado, transforma-se no mistério profano dedicado às partes mais baixas. Sendo assim, cabe a filosofia recuperar sua natural inclinação ao proibido, ao invés de uma verdade universal. O proibido, no corpo, assume a condição de grotesco e repulsivo, digno de asco, nojo.

É nesse terreno que se estabelece a obra de George Bataille, que procura lembrar que mesmo sem alma, todo homem possui um “olho” um cú. “História do Olho” (Cosacnaify. 2015) que se assemelha ao ovo (clara e gema), mas também propriamente ao olho humano propriamente dito, brinquedos na mão de jovens sedentos por liberdade e sexo. Que se divertem quebrando ovos com o cú, outro olho.

522811736_1280x720Para os outros, o universo parece honesto. Parece  honesto para as pessoas de bem  porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obcenidade. Não sentem nenhuma angústia ao ouvir o grito do galo ou ao descobrirem o céu estrelado. Em geral, apreciam os “prazeres da carne”, na condição de que sejam insossos. Mas desde então, não havia mais dúvidas: eu não gostava daquilo que se chama “os prazeres da carne”, justamente por serem insossos. Gostava de tudo o que era tido por “sujo”. Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com a devassidão habitual, porque ela só contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas o meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que imagino em sua presença e, sobretudo, o universo estrelado… (pág.48-49).

“História do Olho” seria um texto de reabilitação dessa parte maldita? Talvez o inverso. De que todo o corpo, culturalmente amaldiçoado, precisa ser substituído por uma metafísica, uma alma pura e um deus bondoso. E de quanto mais amaldiçoado um corpo é, recebe sua negação (censura) na criação metafísica de seu avesso. O mais sujo, maldito e demoníaco, apenas recebe o seu silêncio através de seu avesso elevado, puro e divino. É nesse aspecto que para Bataille o divino tem seu paralelo no ânus, determinando uma radical adesão do paganismo.