Corpos, Máquinas e Além Disso

Homens e máquinas são o mesmo.

É possível, portanto, alterar, acrescentar, diminuir, eliminar: otimizar o rendimento e diminuir os custos. Viver mais e melhor, produzir mais e melhor, ser mais e melhor. É a velha lógica do capital aplicada ao corpo,  mas  também  a  alma.  É  possível  fazer  o  que  se  quer  com  a personalidade  e  os  desejos,  e  também  com  os  corpos.  Plásticas  e cirurgias  de  reparação.  Mudanças  de  sexo  e  implantes  diversos. Chegará  o  tempo  em  que  levantar  cedo  para  ir  ao  trabalho  exigirá algumas horas de cada indivíduo montando diariamente o seu quebra-cabeça particular: se sairá homem, mulher ou nenhum dos dois, se terá a aparência de um jovem ou um velho, precisará decidir sua altura e peso, cor de pele, olhos e cabelo. Se terá uma aparência desleixada, recatada  ou  esnobe  e  pomposa.  Mas  no  final  do  dia,  tudo  será desmontado,  e  o  que  irá  para  a  cama será  outro rosto,  outro  corpo, outra pessoa. Um simples esqueleto.

Mas não se trata apenas de homens, mas também de sociedades. Assim  como  homens  são  máquinas,  o  são  também  sociedades.  Que nascem  homogêneas  e  com  o  tempo  se  fragmentam.  Alguns comparariam a corpo em decomposição. Hoje cada célula deseja vive sozinha. Entre um extremo e outro, pluralidades. Nascer, envelhecer, progressivamente até morrer. Isso já passou.

Você nascerá, e caso não compartilhe do mesmo destino que a maioria dos homens, desses que vivem indefinidamente sem morrer, você será usado  por  eles  como  instrumento  para  reposição  de  seus  órgãos desgastados,  apodrecidos,  perdidos  em  acidentes  ou  simplesmente arrancados,  violentamente  ou  por  puro  acaso.  Até  mesmo  sangue, suor, e uma série de outras substâncias expelidas pelo corpo. E o pior: se tiver sorte você irá viver depois disso.

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O Erotismo de Bataille

Segundo Bataille, o erótico corresponde a uma necessidade psicológica por continuidade, independente da morte, nosso fim natural. Por isso, define o erotismo como “aprovação da vida até na morte[2]” ou seja “uma busca psicológica independente do fim natural dado na reprodução”[3]. Deve-se considerar portanto, uma relação entre a morte e a excitação sexual. A morte porque estabelece um termo a seres descontínuos, e a excitação sexual, fundamentada na necessidade psicológica por continuidade, eternidade. Sendo o erotismo um desejo de superação da morte, é possível remetê-lo a outras dimensões alheias ao simples desejo sexual: erotismo dos corpos, dos corações e o erotismo sagrado. Pois “nelas, o que está sempre em questão é a substituição do isolamento do ser, de sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda”[4]. Essa busca, de superação do domínio da morte e da descontinuidade entre os seres, se estabelece no domínio da violência.

Essencialmente, o domínio do erotismo é o domínio da violência, o domínio da violação (…). Se remetemos à significação que esses estados têm para nós, compreendemos que o arranchamento do ser à descontinuidade é sempre o mais violento. O mais violento para nós é a morte que, precisamente, nos arranca à obstinação que temos de ver durar o ser descontínuo que somos[5].

O erótico constitui um desejo de continuidade contra o ato violento da morte. Desejo este que apenas pode se estabelecer de igual modo, pela violência. A noção de sacrifício ganha destaque como elemento fundamental de toda atribuição erótica:

Insisto no fato de que o parceiro feminino do erotismo aparecia como vítima, o masculino como sacrificador, um e outro, durante a consumação, perdendo-se na continuidade estabelecida por um primeiro ato de destruição (…). Sofremos de nosso isolamento na individualidade descontínua. A paixão nos repete incessantemente: se possuíres o ser amado, esse coração que a solidão estrangula  formaria um só coração com o do ser amado. Ao menos em parte, essa promessa é ilusória (…) Se a união dos dois amantes é o efeito da paixão, ela evoca a morte, o desejo de assassinato ou de suicídio. O que designa a paixão é um halo de morte”[6].

Essa continuidade violenta estabelecida pela paixão, segundo Bataille é incognoscível, atingindo por isso, uma dimensão mística:

Com efeito, o que a experiência mística revela é uma ausência de objeto. O objeto se identifica à descontinuidade e a experiência mística, na medida em que temos a força de operar uma ruptura de nossa descontinuidade, introduz em nós o sentimento de continuidade[7].[8]

Essa dimensão mística do erotismo não pode ser separada de uma dimensão poética. É por isso, que termina a introdução do seu livro afirmando que “A poesia conduz ao mesmo ponto que cada forma de erotismo, à indistinção, à confusão dos objetos distintos. Ela nos conduz à eternidade, nos conduz a morte e, pela morte, à continuidade: a poesia é a eternidade”[9]. É justamente essa dimensão poética do erótico que nos traz de volta a vida desafiando o poder absoluto da morte, algo que recorda bastante o arquétipo dionisíaco de Nietzsche para a força invencível e eterna da vida. Afirma Bataille:

A aprovação da vida até na morte é desafio; tanto no erotismo dos corações quanto no dos corpos, ela é desafio, por indiferença, à morte. A vida é acesso ao ser: se a vida é mortal, a continuidade do ser não o é. A aproximação da continuidade, a embriaguez da continuidade dominam a consideração da morte. Em primeiro lugar, a perturbação erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de tal forma que as sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento. Então, para além da embriaguez aberta à vida juvenil, nos é dado o poder de abordar a morte face a face, e de nela ver enfim a abertura à continuidade ininteligível, incognoscível, que é o segredo do erotismo, e cujo segredo apenas o erotismo traz[10].

É inegável a influência sofrida por Nietzsche e Freud.

Em Nietzsche, Bataille se convence de que a vida é eterna enquanto força alheia ao indivíduo. Mas o indivíduo, enquanto situado pontualmente nessa continuidade, não pode se estabelecer nela sem conflito, em busca de sua continuidade pontual. O erótico constituiria uma alternativa, pois indicaria a busca da continuidade do ser pontual através de sua integração no ser total que a vida é. Essa transcendência apenas se estabelece com o outro, mas de forma violenta, conflituosa, contra a própria violência que a morte é.

Bibliografia

BATAILLE. George. “O Erotismo”. Ed. Autêntica. 2013.

NIETZSCHE. Friedrich. “O Nascimento da Tragédia”. Ed. Companhia de Bolso. 2007.

[1] Geoge Bataille, escritor francês (1897-1962) autor de obras cuja temática se voltam ao erótico, à transgrgessão e ao sagrado como “O Erotismo” e “História do Olho”.

[2] Pág. 35.

[3] Idem.

[4] Pág. 39.

[5] Pág. 40.

[6] Págs. 42-44.

[7] Em suma, querendo ser imortais e criando meios para a busca desse fim, na aplicação destes, sentimos em nós certa continuidade.

[8] Pág. 46.

[9] Pág. 48.

[10] Pág. 47.

Aproveite a Viagem

Os sentidos, ao evocarem uma dimensão da experiência tradicionalmente considerada ambígua e renegada em outras épocas como instrumento de ascese, hoje, adquire um novo status, e jamais pode ser descartada na intensão de se pensar o homem em sua totalidade. A sensação torna-se o critério da verdade do homem, disso, sem dúvida. É preciso aceita-lo, portanto, em todas as suas dicotomias e ambiguidades. Reflexo de um homem dividido, e por isso mesmo, inquieto, angustiado, mas também que reflete sobre o seu lugar no mundo. Não é possível retornar ao passado e separar os sentidos da razão, a vontade do intelecto. Há uma dimensão erótica na racionalidade que precisa ser evocada. Dimensão que se estende na inesgotável pluralidade de seus objetos sensoriais: É dele que fazemos uso, seja como filosofia, literatura, fotografia e escultura. É a vida levada à sua grandeza.

Sinta-se em casa e aproveite a viagem.

Aqui você experimentará novas cores, sons e ideias.

Superamos o tempo em que pessimismo era moda. É possível ser livre, de maneiras tão diferentes quanto o número de estrelas no céu, e nem por isso chegar a conclusão de que a vida é um caos completo e que a cada homem apenas compete esperar lentamente a sua morte. Acreditamos que a singularidade expressa um tipo de beleza, que diferente da opinião corrente não significa um tipo de mutismo solitário, pelo contrário, coloca nos olhos do outro um permanente interesse pelo que encontra no caminho. Excita!