Absinto

“Ela sorriu. Eu juro que sorriu, mas eu não sabia dizer porque. Afinal, as condições pelos quais tudo se desenrolava eram totalmente novas. Ela sorriu, olhando pra mim. Eu era visto. Num primeiro momento, não pude deixar de ter minhas próprias dúvidas sobre isso e impulsivamente expressei apenas indiferença: ela havia, com toda certeza, olhado pra mim, e sorrindo levemente, expressou algum tipo de sentimento, e até mesmo de pensamento (quem sabe?!) que eu não saberia definir com precisão.
Não se tratava de que eu estivesse apaixonado, mas aquilo tudo me intrigava profundamente. Sob a condição de que eu era visto, como único, singular, irrepetivel. Contudo, ainda sim, como uma coisa, tal como são as pedras, pois no instante seguinte a cena não prosseguiu, caminhando decisivamente para sua conclusão: ela, sem timidez alguma, passou por mim como se não me visse, como todas as demais haviam feito. O que havia naquele sorriso? Fiquei feliz, pois diferente do que pensava, talvez eu não estivesse tão sozinho num mundo tão estranho quanto esse”.

Diogo Santana in “Absinto”. 2015.

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