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As esperanças políticas já nascem fracassadas.

É desalentador envelhecer sendo testemunha da sucessão de inúmeras ideologias políticas e seu ciclo natural de nascimento, envelhecimento e morte. Talvez, uma definição sucinta do que foi o século XX. Muita paixão que durou pouco, restando apenas a melancólica sensação de abandono e ausência de sentido. Circunstância propícia a um auto-exame típico de quem atingiu certa maturidade, contudo, sem nenhum tipo de perspectiva: “O que foi que eu fiz?” “Qual o sentido de tudo isso?”

O que é real?

É de onde parte Alain Badiou em seu livro Em Busca do Real Perdido (Ed. Autêntica. 2017). Filósofo marxista de orientação leninista, seu livro, contrariando a suspeita banal pelo qual o título parece evocar (de um livro especificamente sobre metafísica e ontologia), pretende determinar um acerto de contas particular com a esquerda, evocando indiretamente predecessores como Jacques Rancière (O Ódio à Democracia. Ed. Boitempo. 2014) e T. J. Clark (Por Uma Esquerda Sem Futuro. Ed. 34. 2013).

O que é Real?

Segundo Badiou o termo parece evocar no senso comum certa propriedade no qual não podemos evitar por qualquer meio. O real portanto coincide com certa condição de fatalidade. Conhecer tal condição equivaleria a uma falsificação, posto que o real, enquanto fatalidade sempre se impõe resistente a mim. Sendo assim, não é possível reduzir o real a um conhecimento objetivo específico, científico e racionalizável. Paradoxalmente evoca Platão, no qual possui grande estima. Para conhecer o real é preciso sair da caverna, e isto significa, colocar em suspensão, os diversos saberes que representam nossa noção ocidental de realidade.

É nesse sentido, segundo Badiou, que a filosofia enquanto guarda da ratio (para usar uma expressão heideggeriana) posiciona-se contra a realidade e a favor de uma falsificação. Entretanto, o dilema consiste em saber se um conhecimento do real enquanto fatalidade, imposição, poderia determinar ou não uma transformação da vida. O real é uma imposição que não pode ser diretamente conhecida, por outro lado, é imediatamente vivida. Essa ambiguidade entre conhecimento e experiência vivida, determina uma oposição entre uma realidade e outra. Uma imaginária, a outra, cruelmente imposta. Uma que é máscara, e outra, por ser incerta, é máscara da máscara. Há uma bela analogia com O Doente Imaginário de Molliére.

O que constitui nossa realidade política?
Aqui se revela a grande intensão de Badiou.

É amplamente reconhecida no ocidente os interesses de uma forte democratização política. Nossa realidade política (parece ser) é a democracia. Todavia, seu grande opositor, por outro lado, não constitui os grandes regimes autoritários do passado, mas sim, uma outra concepção de democracia, amplamente divulgada e sustentada pelo capitalismo de mercado. A aposta feita por Badiou na democracia consiste na defesa de uma igualdade que se impõe ao capitalismo. O capitalismo não sobrevive com igualdade, mas sim com competição. Por outro lado, reage contra tal imposição determinando uma outra concepção de democracia. Há uma democracia real velada por uma democracia imaginária. Nesse aspecto, Badiou não difere muito de outros partidários da esquerda contemporânea. O marxismo tradicionalmente sempre acreditou que a iniciativa da luta de classes e a história determinariam a emancipação dos trabalhadores. Badiou não acredita mais no fatalismo da história. Não a justifica mais como nosso referencial de realidade política. A história não está comprometida com a emancipação, mas sim com violência e por meio dela tudo foi justificado.

Sua proposta é de uma esquerda apaixonada que não pensa mais em seu futuro, mas apenas em seu presente. Pensando se tratar de um militante de longa história, que presenciou todo o desfortúnio de sua paixão, talvez seja uma espécie de consolo entre as ruínas de um sonho.

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