Esboço para uma leitura de Boehme

*Diogo Santana

A razão humana consiste de uma subjetividade encerrada na temporalidade. É por esse princípio que determinará causas empíricas para todos os fenômenos que conhece e todos os problemas que levanta. A existência de Deus e o sofrimento dos bons torna-se um problema insulúvel para a razão, pois a razão, situando o problema do conhecimento à empiria, ao refletir sobre si mesma, pode intuir uma origem, uma causa primeira, por outro lado, não pode justificar uma origem transcendente na maneira como fundamenta o conhecimento, de si e do mundo.

A razão dirige-se ao empírico. Essa é a sua natureza. Entretanto, é na investigação de si mesma que se torna justificável seu fundamento metafísico, transcendental, que por outro lado não pode reconhecer. Esse é o impasse que se estabelece entre a existência de Deus e uma moral universal, averiguada por uma razão que justifica todo seu conhecimento através da empiria.

A razão se limita ao empírico, ou seja, às relações de causa e efeito, entretanto, não pode responder tudo a partir de tal perspectiva (como a existência de Deus e o sofrimento dos bons), sendo assim, vive em profunda inquietação e sofrimento, e isto significa, exige deixar de sofrer. Se o homem sofre porque sua razão encontra um termo (o mundo empírico), a ausência do sofrimento estaria na plenitude da razão que transcende á empiria.

A “desamparada razão”, chegando ao seu limite reconhece um fundamento metafísico para si mesma e para a moral, contudo, é incapaz de definir que fundamento é esse. Nesse aspecto concebe que o mal pode ser resolvido e a inquietação da razão suspensa. O homem não deseja sofrer porque acredita que o sofrimento pode ser eliminado através do princípio metafísico que a fundamenta.

Por inquietar-se diante da impossibilidade em justificar empiricamente todas as coisas, a razão volta-se sobre si mesma, seu fundamento e origem. A justificação empírica deixa de ser um critério (pois o fundamento da razão não é racional). A razão é um princípio de ordem imanente. Deus e uma moral universal, princípios de ordem transcendente, e que por isso, envolve a razão. O imanente não pode alcançar o transcendente, e por isso se inquieta, sofre. Porque então Deus permite essa diferença qualitativa e por isso mesmo, o sofrimento? Segundo Boehme, a consciência é ela mesma uma divisão. Sem diferença qualitativa apenas uma ordem, e apenas uma ordem não haveria consciência. O sofrimento é portanto inerente à consciência, cuja natureza é a cisão entre o transcendente e o imanente.

Sem essa diferença qualitativa não haveria consciência, tampouco conhecimento e sofrimento. Para Boehme todo conhecimento, vontade, percepção, é fruto imediato de uma oposição, pois “somente uma coisa una pode conhecer uma única coisa”. Deus cria para que tenha uma oposição a si para que tenha conhecimento de si (e isto significa que Deus também sofre).

A vida consiste em luta, e isto significa, numa séria infinita de oposições permanentes, que por sua vez se direigem a algo oposto a elas (que é Deus). O mesmo princípio é extendido na formulação de uma epistemologia. Muitos são os pensamentos, porém a mente (seu centrum) é única. Muitas são as vontades (boas ou más) contudo, esta também possui o seu centrum (A Vontade que rege todas as vontades). Boehme denomina contrarium às multiplicidades (que vivem em constante oposição) que orbitam em torno de um núcleo regulador (centrum).

Fundamentos de Uma Razão Transcendente

Como a razão, que é temporal e empírica é capaz de alcançar o atemporal e o supra-sensível?

O homem não foi criado originalmente para a temporalidade, mas sim para a eternidade. Por isso, é capaz de transcender os limites de sua própria racionalidade e sensibilidade. “A vida do homem é uma forma {contrarium} da vontade divina e foi insuflada por Deus na imagem criada no homem”.

O homem é um ser que originalmente mantêm o equilíbrio (ou síntese, que Boehme denomina temperamentum) entre o eterno e o transitório, entre o finito e o infinito. O diabólico corresponde em Boehme ao contrárium que tornou a síntese imperfeita, o que significa, que fez o homem ter consciência de si exclusivamente no finito. Atributo da razão.

Temperamentum é equilibrio, harmonia, ordem, razão divina, paraíso, imagem de Deus. O rompimento com o temperamentum consiste numa subjetividade encerrada em si mesma, consciente do plural (do diferente e da diferença) e por isso dos valores (do bem e do mal), indo da unidade à uma multiplicidade crescente, e por isso, em oposição, combate.

A vida humana é oposição (contrarium) a vontade de Deus (centrum) para que Deus tenha consciência de si. Uma das manifestações desse contrárium é o demoníaco, isto é, consciência de si exclusiva de forças finitas, plurais e combatentes entre si. A razão empírica é uma de suas manifestações. Originalmente a vida humana é um contrárium a vontade divina que por outro lado não se opõe radicalmente a ela, mas sim, corresponde a uma extensão. Um temperamentum. (O homem é oposição a Deus posto ser criatura dele, logo, seu diferente, seu contrárium, por outro lado, Boehme ressalta que originalmente esse contrárium era extenso a ele, tal como a cabeça e o braço fazem parte do mesmo corpo, determinando um temperamentum).

Do Uno ao Múltiplo

Boehme entende que o problema do conhecimento constitui uma ordem de relações entre o Uno e o Múltiplo. Nesse sentido, é herdeiro de toda uma tradição neoplatônica, incorporada ao cristianismo, e em seu caso específico, ao luteranismo. Quando Deus cria, conhece a si mesmo. O Verbo é o primeiro movimento da criação, a revelação da Vontade insondável da divindade, a exteriorização que Deus faz de si mesmo. O Verbo é a revelação que Deus faz de si para si. Através do Verbo o Uno se identifica com sua criação. Através do Verbo o uno se introduz no múltiplo. O mundo sensível é o meio qualitativo pelo qual Deus se reconhece. O mundo visível é a extensão do Verbo em atribuições qualitativas, ou seja, as qualidades do Verbo divino correspondem e se extendem às atibuições do mundo físico.

“Em tal contrarium da Vontade divina, devemos entender duas espécies de vidas, uma eterna e outra temporal, mortal. A vida eterna está no eterno, origina-se do Verbo eterno e reside no fundamento do eterno mundo espiritual, fundamento esse que é o mysteruim magnum, o contrarium divino. Ele é a vida intelectiva que está no fundamento do fogo e da luz eternos” (III. 15).

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