O misterium Pansophycum

 

O misterium Pansophycum possui como orientação ser um tratado de Jacob Boehme a respeito do mistério da criação (do universo até o exercício mágico em si) determinando as diferenças qualitativas entre desejo e vontade, Deus e natureza, intelecto e instinto, homem e sociedade, Cristo e Lúcifer. Em tal diferença desde a grande tarefa do magista. Todo magista é um criador, e para tanto, não deve se deixar dominar por forças alheias a si, mas sim, compreender as forças que regem a criação e dominá-las.

Primeiro Texto

O absoluto ( o sem fundo) é uma permanente ausência infinita (nesse caso, não é caótica, como defendiam os gregos, mas anterior ao caos). Sendo nada, deseja potencialmente o todo. Esse desejo é o próprio ato cego da criação. O desejo é o vir-a-ser que não alcança o seu termo nunca. Cada criação do nada, nada é, nesse aspecto, incorpora em si mesma o desejo incessante de vir a ser do todo (a parte é idêntica ao todo). Magia é criação a partir da Vontade (razão/ Deus) do magista sobre o desejo cego da natureza.

Segundo Texto

O desejo do nada em ser, só o nada pode desejar. É nesse aspecto que Boehme afirma que o desejo sai de si para retornar a si. Ele se duplica qualitativamente, isto significa, como o nada deseja a alteridade (sem contudo haver qualquer alteridade, desejando apenas a si mesmo), sai de si (e nisso já não é si mesmo) como uma qualidade distinta. O desejo cego da natureza se exterioriza de si como Vontade, razão, Deus, e retorna para si mesmo como a ordem de toda criação. Nesse aspecto Deus e natureza correspondem a qualidades simultâneas de um mesmo princípio absoluto, e por isso não se excluem. Deus, razão ou Vontade é a expressão subjetiva da natureza ou desejo objetivo.

Terceiro Texto

Deus é o conhecimento eterno do absoluto. Intensão e Vontade. Por isso Boehme identificá-lo à figura do mago. Por outro lado, a essência de tal conhecimento é a presença. É a própria vida absoluta encerrada em si mesma, por isso, um nada. Essência incognoscível de Deus, desejo. Por isso Boehme identificá-lo à figura da magia, força universal que permeia o Todo (Eliphas Levi denomina Luz Astral). Deus é o mago que ordena e determina na natureza cega um propósito.

Quarto Texto

Deus e natureza não são elementos distintos, mas simultâneos. Deus é a natureza que se revela subjetivamente. A natureza corresponde a força cega e objetiva que é ordenada. Objetivamente natureza, subjetivamente Deus.

Quinto Texto

O desejo sai de si como Deus, mas retorna a si no processo de ordenação da natureza. Nisso, há uma projeção. A ordenação corresponde uma compreensão, que não é a coisa em si, mas sim uma possibilidade dela instaurada na realidade. Deus se conhece refletindo-se na natureza, ordenando-a. Entretanto, não pode confundir-se com esse conhecimento, com essa ordem. Deus não é a ordem da natureza, mas o princípio que ordena. Entretanto, essa distinção (entre Deus e o conhecimento de si), estabelecida posteriormente, determina o que Boehme denomina turba, desordem, caos, conflito. A grande questão levantada por Boehme nesse aspecto é explicar como a ordem é simultânea ao caos na natureza.

Sexto Texto

A turba é o que determina o conflito entre todos os seres. Cada vontade particular dos seres possui também a sua turba. Cada ordem específica dos entes também possui o seu conflito com o Todo. Há portanto, uma relação simultânea entre identidade e alteridade, ordem e caos. Todo o poder temporal segundo Boehme se estabelece no conflito. Em tal conflito, a parte pode querer dominar o todo ou separar-se do todo. O primeiro aspecto Boehme identifica com a monarquia ou o Império (governos ideais segundo ele pois correspondem a um retorno – cada um a sua maneira- à unidade). O segundo Boehme denomina “abismo” e pode corresponder a uma referência indireta a democracia e seu ideal de representatividade por intermédio das individualidades em ascensão, mas que encontrará o seu fim no futuro.

Sétimo Texto

O movimento do Uno ao múltiplo e da simultaneidade entre objetivo e subjetivo, Deus e natureza, também determina o surgimento das línguas e idiomas. É reconhecido por Boehme apenas um único idioma, o da natureza, este porém é simultãneo a uma compreensão, própria ao Espírito de Deus. Posteriores a estes Boehme reconhece três outros idiomas fundamentais, onde todos os outros são oriundos,num movimento do objetivo para o subjetivo, da língua da natureza para a compreensão divina desse idioma: hebraico, grego e latim. Segundo Boehme 72 línguas são oriundas destas cinco principais. As línguas possuem sua origem no demoníaco interesse da Vontade (razão) tornar-se particular na ordem de cada ser. É assim que interpreta o mito da torre de Babel:

“Voltando-se para sua própria razão individual, perderam então seu condutor, confundiram com isso sua razão e deixaram de compreender sua própria língua [universal]”.

Oitavo Texto

Nele Boehme trata da distinção entre paganismo e judaísmo. Ambos idólatras. O paganismo sendo expressão do múltiplo, caótico e conflituoso impulso da natureza e o judaísmo a expressão do Uno, da ordem, da Vontade de Deus. O movimento do uno ao múltiplo, na história das religiões constitui a própria origem do paganismo. Segundo Boehme, um movimento do judaísmo (uno) ao paganismo (múltiplo) apenas tornou-se possível por uma “degeneração” do próprio judaísmo. Degeneração que corresponde a uma transição: uno na forma, contudo, múltiplo no conteúdo.

“Ele sai da Unidade para a multiplicidade, que é uma confusa Babel, e sua boca hipócrita, com a qual dirige boas palavra, louvores e solenes promessas ao Espírito da Unidade, é um anticristo, que fala uma coisa e age de maneira contrária” (pág. 103).

Nono Texto

A razão universal por intermédio da turba fundamenta a razão particular. Entretanto, esta última encerra-se em si mesma fundamentando o demoníaco. Boehme portanto, identifica duas espécies de magia: Uma que se estabelece na unidade e é divina, outra, múltipla, é demoníaca. Auto-avaliação sobre os interesses do desejo individual corresponde a uma profunda introspecção, que segundo Boehme é fundamental para determinar os caminhos tomados pelo homem em direção ao divino ou demoníaco. Há explícita defesa de uma espécie de ascetismo, no movimento exercido do múltiplo em direção ao uno. Segundo ele, os influxos astrais nos tornam escravos. O grande trabalho do magista é tornar-se livre desses influxos, é isso significa, controlar seu próprio destino. Ora, não há nada mais thelêmico do que isso! Isso se dá através da adequação dá razão individual à razão universal que ele denomina VONTADE ou DEUS. Para isso, começa explicando como a razão individual tornou-se individual, isto é, separada de Deus e amplia tal conclusão na forma de compreender toda a criação, e nisso ele tradicionalmente cristão.

Bibliografia 

BOEHME. Jacob. A Revelação do Grande Mistério Divino. Ed. Polar. 1998. págs. 81-109.

Badiou Contra as Teleologias Políticas

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As esperanças políticas já nascem fracassadas.

É desalentador envelhecer sendo testemunha da sucessão de inúmeras ideologias políticas e seu ciclo natural de nascimento, envelhecimento e morte. Talvez, uma definição sucinta do que foi o século XX. Muita paixão que durou pouco, restando apenas a melancólica sensação de abandono e ausência de sentido. Circunstância propícia a um auto-exame típico de quem atingiu certa maturidade, contudo, sem nenhum tipo de perspectiva: “O que foi que eu fiz?” “Qual o sentido de tudo isso?”

O que é real?

É de onde parte Alain Badiou em seu livro Em Busca do Real Perdido (Ed. Autêntica. 2017). Filósofo marxista de orientação leninista, seu livro, contrariando a suspeita banal pelo qual o título parece evocar (de um livro especificamente sobre metafísica e ontologia), pretende determinar um acerto de contas particular com a esquerda, evocando indiretamente predecessores como Jacques Rancière (O Ódio à Democracia. Ed. Boitempo. 2014) e T. J. Clark (Por Uma Esquerda Sem Futuro. Ed. 34. 2013).

O que é Real?

Segundo Badiou o termo parece evocar no senso comum certa propriedade no qual não podemos evitar por qualquer meio. O real portanto coincide com certa condição de fatalidade. Conhecer tal condição equivaleria a uma falsificação, posto que o real, enquanto fatalidade sempre se impõe resistente a mim. Sendo assim, não é possível reduzir o real a um conhecimento objetivo específico, científico e racionalizável. Paradoxalmente evoca Platão, no qual possui grande estima. Para conhecer o real é preciso sair da caverna, e isto significa, colocar em suspensão, os diversos saberes que representam nossa noção ocidental de realidade.

É nesse sentido, segundo Badiou, que a filosofia enquanto guarda da ratio (para usar uma expressão heideggeriana) posiciona-se contra a realidade e a favor de uma falsificação. Entretanto, o dilema consiste em saber se um conhecimento do real enquanto fatalidade, imposição, poderia determinar ou não uma transformação da vida. O real é uma imposição que não pode ser diretamente conhecida, por outro lado, é imediatamente vivida. Essa ambiguidade entre conhecimento e experiência vivida, determina uma oposição entre uma realidade e outra. Uma imaginária, a outra, cruelmente imposta. Uma que é máscara, e outra, por ser incerta, é máscara da máscara. Há uma bela analogia com O Doente Imaginário de Molliére.

O que constitui nossa realidade política?
Aqui se revela a grande intensão de Badiou.

É amplamente reconhecida no ocidente os interesses de uma forte democratização política. Nossa realidade política (parece ser) é a democracia. Todavia, seu grande opositor, por outro lado, não constitui os grandes regimes autoritários do passado, mas sim, uma outra concepção de democracia, amplamente divulgada e sustentada pelo capitalismo de mercado. A aposta feita por Badiou na democracia consiste na defesa de uma igualdade que se impõe ao capitalismo. O capitalismo não sobrevive com igualdade, mas sim com competição. Por outro lado, reage contra tal imposição determinando uma outra concepção de democracia. Há uma democracia real velada por uma democracia imaginária. Nesse aspecto, Badiou não difere muito de outros partidários da esquerda contemporânea. O marxismo tradicionalmente sempre acreditou que a iniciativa da luta de classes e a história determinariam a emancipação dos trabalhadores. Badiou não acredita mais no fatalismo da história. Não a justifica mais como nosso referencial de realidade política. A história não está comprometida com a emancipação, mas sim com violência e por meio dela tudo foi justificado.

Sua proposta é de uma esquerda apaixonada que não pensa mais em seu futuro, mas apenas em seu presente. Pensando se tratar de um militante de longa história, que presenciou todo o desfortúnio de sua paixão, talvez seja uma espécie de consolo entre as ruínas de um sonho.

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Sobre a Contemplação Divina em Jacob Boehme

Esboço para uma leitura de Boehme

*Diogo Santana

A razão humana consiste de uma subjetividade encerrada na temporalidade. É por esse princípio que determinará causas empíricas para todos os fenômenos que conhece e todos os problemas que levanta. A existência de Deus e o sofrimento dos bons torna-se um problema insulúvel para a razão, pois a razão, situando o problema do conhecimento à empiria, ao refletir sobre si mesma, pode intuir uma origem, uma causa primeira, por outro lado, não pode justificar uma origem transcendente na maneira como fundamenta o conhecimento, de si e do mundo.

A razão dirige-se ao empírico. Essa é a sua natureza. Entretanto, é na investigação de si mesma que se torna justificável seu fundamento metafísico, transcendental, que por outro lado não pode reconhecer. Esse é o impasse que se estabelece entre a existência de Deus e uma moral universal, averiguada por uma razão que justifica todo seu conhecimento através da empiria.

A razão se limita ao empírico, ou seja, às relações de causa e efeito, entretanto, não pode responder tudo a partir de tal perspectiva (como a existência de Deus e o sofrimento dos bons), sendo assim, vive em profunda inquietação e sofrimento, e isto significa, exige deixar de sofrer. Se o homem sofre porque sua razão encontra um termo (o mundo empírico), a ausência do sofrimento estaria na plenitude da razão que transcende á empiria.

A “desamparada razão”, chegando ao seu limite reconhece um fundamento metafísico para si mesma e para a moral, contudo, é incapaz de definir que fundamento é esse. Nesse aspecto concebe que o mal pode ser resolvido e a inquietação da razão suspensa. O homem não deseja sofrer porque acredita que o sofrimento pode ser eliminado através do princípio metafísico que a fundamenta.

Por inquietar-se diante da impossibilidade em justificar empiricamente todas as coisas, a razão volta-se sobre si mesma, seu fundamento e origem. A justificação empírica deixa de ser um critério (pois o fundamento da razão não é racional). A razão é um princípio de ordem imanente. Deus e uma moral universal, princípios de ordem transcendente, e que por isso, envolve a razão. O imanente não pode alcançar o transcendente, e por isso se inquieta, sofre. Porque então Deus permite essa diferença qualitativa e por isso mesmo, o sofrimento? Segundo Boehme, a consciência é ela mesma uma divisão. Sem diferença qualitativa apenas uma ordem, e apenas uma ordem não haveria consciência. O sofrimento é portanto inerente à consciência, cuja natureza é a cisão entre o transcendente e o imanente.

Sem essa diferença qualitativa não haveria consciência, tampouco conhecimento e sofrimento. Para Boehme todo conhecimento, vontade, percepção, é fruto imediato de uma oposição, pois “somente uma coisa una pode conhecer uma única coisa”. Deus cria para que tenha uma oposição a si para que tenha conhecimento de si (e isto significa que Deus também sofre).

A vida consiste em luta, e isto significa, numa séria infinita de oposições permanentes, que por sua vez se direigem a algo oposto a elas (que é Deus). O mesmo princípio é extendido na formulação de uma epistemologia. Muitos são os pensamentos, porém a mente (seu centrum) é única. Muitas são as vontades (boas ou más) contudo, esta também possui o seu centrum (A Vontade que rege todas as vontades). Boehme denomina contrarium às multiplicidades (que vivem em constante oposição) que orbitam em torno de um núcleo regulador (centrum).

Fundamentos de Uma Razão Transcendente

Como a razão, que é temporal e empírica é capaz de alcançar o atemporal e o supra-sensível?

O homem não foi criado originalmente para a temporalidade, mas sim para a eternidade. Por isso, é capaz de transcender os limites de sua própria racionalidade e sensibilidade. “A vida do homem é uma forma {contrarium} da vontade divina e foi insuflada por Deus na imagem criada no homem”.

O homem é um ser que originalmente mantêm o equilíbrio (ou síntese, que Boehme denomina temperamentum) entre o eterno e o transitório, entre o finito e o infinito. O diabólico corresponde em Boehme ao contrárium que tornou a síntese imperfeita, o que significa, que fez o homem ter consciência de si exclusivamente no finito. Atributo da razão.

Temperamentum é equilibrio, harmonia, ordem, razão divina, paraíso, imagem de Deus. O rompimento com o temperamentum consiste numa subjetividade encerrada em si mesma, consciente do plural (do diferente e da diferença) e por isso dos valores (do bem e do mal), indo da unidade à uma multiplicidade crescente, e por isso, em oposição, combate.

A vida humana é oposição (contrarium) a vontade de Deus (centrum) para que Deus tenha consciência de si. Uma das manifestações desse contrárium é o demoníaco, isto é, consciência de si exclusiva de forças finitas, plurais e combatentes entre si. A razão empírica é uma de suas manifestações. Originalmente a vida humana é um contrárium a vontade divina que por outro lado não se opõe radicalmente a ela, mas sim, corresponde a uma extensão. Um temperamentum. (O homem é oposição a Deus posto ser criatura dele, logo, seu diferente, seu contrárium, por outro lado, Boehme ressalta que originalmente esse contrárium era extenso a ele, tal como a cabeça e o braço fazem parte do mesmo corpo, determinando um temperamentum).

Do Uno ao Múltiplo

Boehme entende que o problema do conhecimento constitui uma ordem de relações entre o Uno e o Múltiplo. Nesse sentido, é herdeiro de toda uma tradição neoplatônica, incorporada ao cristianismo, e em seu caso específico, ao luteranismo. Quando Deus cria, conhece a si mesmo. O Verbo é o primeiro movimento da criação, a revelação da Vontade insondável da divindade, a exteriorização que Deus faz de si mesmo. O Verbo é a revelação que Deus faz de si para si. Através do Verbo o Uno se identifica com sua criação. Através do Verbo o uno se introduz no múltiplo. O mundo sensível é o meio qualitativo pelo qual Deus se reconhece. O mundo visível é a extensão do Verbo em atribuições qualitativas, ou seja, as qualidades do Verbo divino correspondem e se extendem às atibuições do mundo físico.

“Em tal contrarium da Vontade divina, devemos entender duas espécies de vidas, uma eterna e outra temporal, mortal. A vida eterna está no eterno, origina-se do Verbo eterno e reside no fundamento do eterno mundo espiritual, fundamento esse que é o mysteruim magnum, o contrarium divino. Ele é a vida intelectiva que está no fundamento do fogo e da luz eternos” (III. 15).