Marxismo e Subjetividade

Em sua palestra O Existencialismo é um Humanismo de 1941, Sartre, de maneira apologética, ao argumentar contra algumas críticas feitas por católicos e marxistas a sua filosofia, inicia uma aproximação teórica entre seu pensamento e o de Karl Marx. Sendo assim, procura contestar a concepção equivocada de muitos marxistas que até então interpretavam o existencialismo como uma espécie de quietismo, de filosofia contemplativa e por isso burguesa, que tem em vista uma subjetividade pura, logo também, idealista. O existencialismo, ao partir da premissa de que a existência precede a essência, tem a subjetividade como ponto de partida, mas não como limite, isto significa, que o homem existe antes de poder ser definido por qualquer conceito. A definição pressupõe originalmente uma liberdade radical, porém engajada, ou seja, delimitada por uma cultura, uma classe e uma situação histórica determinada. Que o homem escolhe a partir do seu mundo, ou seja, da totalidade de possibilidades que se apresentam diante dele. Escolher a partir de seu mundo significa que o homem está fora de si mesmo e “projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz existir o homem e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele pode existir”.

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O homem é projeção exterior de si mesmo. Esse é o ponto no qual Sartre iniciará seu diálogo com o marxismo. Posteriormente em Crítica da Razão Dialética (1960) e O Que é Subjetividade (conferência de 1961, realizada no Partido Comunista Italiano). Essa aproximação determina antes, uma revisão de todo o instrumental conceitual, tanto do comunismo quanto do existencialismo. Tal aproximação possui como orientação para Sartre em desenvolver uma interpretação marxista da subjetividade. Nesse aspecto, contesta algumas ramificações heterodoxas do marxismo, como o de Lucaks por exemplo, que justificavam um materialismo radical. Para Sartre esse tipo de postura compreenderia um idealismo objetivista, posto que o homem não participa de sua construção.

Essa relação implica um problema epistemológico e posteriormente ontológico. Epistemológico porque o ser que pensa a si mesmo sempre pensa a si mesmo como objeto e não como sujeito que é, sendo assim, pensa outra coisa diferente dele. “Se a subjetividade é o não objeto, se ela escapa como tal ao conhecimento, como podemos afirmar verdades a seu respeito? (…) O conhecimento do subjetivo tem de fato algo destruidor para o próprio subjetivo (págs. 35 e 37)”. Em outras palavras, apenas se conhece o que não é mais atual. É possível então se falar em subjetividade sem torná-la um objeto? Isto significa distingui-la de um saber e como tal é vivência, ação, práxis. “Ou seja, o essencial da subjetividade é de ela só se conhecer por fora, em sua própria invenção, e nunca por dentro. Se ela se conhecer por dentro, está morta; se ela for decifrada por fora, então está plena, torna-se com efeito objeto, mas ela é objeto em seus resultados, o que nos remete a uma subjetividade que,  por sua vez, não é realmente objetivável” (pág. 54). Se a subjetividade apenas se reconhece como tal no exterior, ela é exterior a si mesma, isto é, pura projeção:

E é desse modo que se deve, portanto, conceber a subjetividade, ou seja, que ela é perpétua projeção. Do que? Na medida em que é uma mediação, só pode tratar-se da projeção de um ser de aquém sobre o ser de além. O que nos dá então a possibilidade de compreender em que a subjetividade é indispensável para o conhecimento dialético do social (…) Eles projetam, precisamente nessa vida histórica, o seu ser, mas eles o projetam em função da maneira  como eles mesmos estão inseridos, eles criam, a cada momento, a singularização, o que é precisamente o modo de vive-lo cegamente e em contradição com o seu próprio passado, é, portanto, um universal singular ou uma singularização universal (págs. 55-56).

A subjetividade é, portanto, projeção de um ser sobre outro. Projeção sujeita a maneira como vivem, e vivem a partir da projeção, numa relação dialética que Sartre concebe apenas como fenômeno totalizante que escapa ao conhecimento, visto participarmos dele. Nesse sentido a dialética não corresponde a uma lei, mas sim, onde por ela podem ser criadas leis ou conjunto de leis que interpretariam o fenômeno.

Bibliografia

SARTRE. Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Ed. Abril Cultural. 1978.

_____________. O Que é a Subjetividade?. Ed. Nova Fronteira. 2016.

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Sociedade do Cansaço

 

Desde Platão é bem conhecida a identidade e analogia entre a parte e o todo, o indivíduo e a coletividade. Byung Chul Han filósofo coreano radicado em Berlim, inspirado em tal relação procura determinar as origens dialéticas para uma já em curso sociedade do cansaço.

Em Violência Neuronal, argumenta que essa identidade entre indivíduo e meio social, é útil e bem pertinente para a compreensão das transformações tanto sociais quanto individuais. Nesse aspecto, sugere um paradigma imunológico que predominou até fins do século passado. Nesse modelo procura-se distinguir precisamente o igual do diferente, o amigo do inimigo, o nacional do estrangeiro, o bem do mal, a saúde da doença, louco do são. Como consequência, é uma sociedade de prevenção. Segundo o filósofo coreano, esse tipo de sociedade tem sido substituída por um paradigma neural. O risco não está mais na ameaça de invasão aos sistemas, mas em sua pane interna cuja origem é superaquecimento através de hiperatividade, explicando assim o porque em nosso século ser recorrente problemas de índole neurológica e psíquica: depressão, déficit de atenção, transtorno obsessivo-compulsivo e etc.

Em Além da Sociedade Disciplinar, deixa claro como o paradigma imunológico pode ser descrito nos termos de uma sociedade disciplinar em termos foucaultianos. Que este tipo de sociedade de prevenção e controle está sendo substituída por uma sociedade do desempenho.  Desempenho que se estabelece em termos positivos como produtividade e sucesso, e que para tanto, necessita exigir cada vez mais do indivíduo, tal como em Metrópolis, clássico do cineastra austríaco Fritz Lang.

Como consequência, em O Tedio Profundo procura descrever como essa nova exigência produz compulsivamente uma sociedade de fracassados e gente insatisfeita, depressiva e melancólica que para aumentar seu desempenho necessita compulsivamente de medicação e estimulantes dos mais diversos. A necessidade de estímulo para uma sociedade sem estímulo algum. Na sociedade do desempenho o valor da mão de obra e determinado pela capacidade em executar várias tarefas ao mesmo tempo. É uma sociedade multi-tarefal e que por isso exige pouca (ou nenhuma) capacidade de reflexão, apenas reprodução metódica e mecânica. Essa ausência de reflexão nos identifica com os animais e explica, segundo Byung Chul Han, os motivos para uma sociedade cada vez mais erotizada, impulsiva e violenta.

Em Vita Activa, inspirado em Hanna Arendt, descreve como, segundo a filósofa, o “homem moderno (…) estaria passivamente exposto ao processo anônimo da vida”, inibido de toda capacidade para agir, onde todas as suas atividades estão reduzidas ao patamar do trabalho. Byung critica Hanna Arendt na constatação de que seu conceito de vita activa (vida de ação­) se aproxima consideravelmente com o sujeito hiperativo e estimulado dos dias atuais. Inicia, portanto, uma longa apologia ao tédio como instrumento de reflexão, de pausa e antecipação da ação.

O tédio enquanto instrumento de reflexão implica em demorar-se para a ação, mas não a negação da ação. Esse tipo de postura é determina uma outra maneira de ver. Exige uma Pedagogia de Ver.

Por fim, sintetiza essa série de relações metodológicas em dois tempos. Em O Caso Bartlheby, tipifica o conto de Melvilles como uma perfeita descrição do modelo de uma sociedade disciplinar, onde o homem é completamente reduzido a animal laborans, a força de trabalho, seguindo o paradigma imunológico. Nesse caso são seus personagens a expressar certa ambiguidade com o meio, expressando uma série de problemas psicológicos, antecipando assim outro paradigma social.  A exceção está no próprio Bartlheby e sua curiosa propriedade em suspender tragicamente essa condição em seu “Prefiro não”. A partir dai Byung Chul Han se dedica a uma longa contestação a interpretação feita por Agamben sobre o conto, onde Bartleby é avaliado através de uma perspectiva teológica e messiânica. Posteriormente dedica-se à Sociedade do Cansaço como paradigma sociológico presente, mas também futuro. É o que somos e o que nos tornaremos. Um projeto em curso.

Um livrinho com uma linguagem clara e bem acessível, com uma temática bem conhecida, cuja originalidade consiste na síntese entre seus elementos já bem conhecidos entre nós.

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Bibliografia

AGAMBEN. Giorgio. Bartlheby ou da Contingência. Ed. Autêntica. 2015.

CHUL HAN. Byung. A Sociedade do Cansaço. Ed. Vozes.2016.

PLATÃO. A República. Fundação Calouste. 1997.

LANG. Fritz. Metrópolis. 1927/2010.