O “Olho” de Bataille

22362703346_356325cffb_k.jpgAo abandonar o céu das abstrações ideais, a filosofia dedicou-se a ocupar o inferno do corpo, sua potência e inúmeras possibilidades, o que representa uma transformação radical em sua própria natureza; posto que agora, sozinho no mundo, sem Deus e uma alma imortal, o que todo homem apenas tem diante de si é seu próprio corpo, e isto significa, sua carne, ossos, sangue, fezes, urina, sêmen, fluido vaginal, imundícia de toda espécie e uma infinidade de odores. Pensar desse modo, não significa mais ascender, mas descer ao mais baixo possível. É nesse aspecto que muitos filósofos optam hoje pelas arqueologias.

Sem a alma de um deus, cabe ao homem resignar-se em sua condição de besta. Algo difícil até mesmo para os de caráter mais forte. É nesse aspecto que o absoluto configura-se, outrora metafísico, agora, na irredutibilidade do corpo, assim como o sagrado, transforma-se no mistério profano dedicado às partes mais baixas. Sendo assim, cabe a filosofia recuperar sua natural inclinação ao proibido, ao invés de uma verdade universal. O proibido, no corpo, assume a condição de grotesco e repulsivo, digno de asco, nojo.

É nesse terreno que se estabelece a obra de George Bataille, que procura lembrar que mesmo sem alma, todo homem possui um “olho” um cú. “História do Olho” (Cosacnaify. 2015) que se assemelha ao ovo (clara e gema), mas também propriamente ao olho humano propriamente dito, brinquedos na mão de jovens sedentos por liberdade e sexo. Que se divertem quebrando ovos com o cú, outro olho.

522811736_1280x720Para os outros, o universo parece honesto. Parece  honesto para as pessoas de bem  porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obcenidade. Não sentem nenhuma angústia ao ouvir o grito do galo ou ao descobrirem o céu estrelado. Em geral, apreciam os “prazeres da carne”, na condição de que sejam insossos. Mas desde então, não havia mais dúvidas: eu não gostava daquilo que se chama “os prazeres da carne”, justamente por serem insossos. Gostava de tudo o que era tido por “sujo”. Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com a devassidão habitual, porque ela só contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas o meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que imagino em sua presença e, sobretudo, o universo estrelado… (pág.48-49).

“História do Olho” seria um texto de reabilitação dessa parte maldita? Talvez o inverso. De que todo o corpo, culturalmente amaldiçoado, precisa ser substituído por uma metafísica, uma alma pura e um deus bondoso. E de quanto mais amaldiçoado um corpo é, recebe sua negação (censura) na criação metafísica de seu avesso. O mais sujo, maldito e demoníaco, apenas recebe o seu silêncio através de seu avesso elevado, puro e divino. É nesse aspecto que para Bataille o divino tem seu paralelo no ânus, determinando uma radical adesão do paganismo.    

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