Saturno Buttó

Arte exige corporeidade.

É inevitável que nessa relação com o corpo, beleza não seja apenas concebida como forma, mas também como expressão de uma condição visceral. Satturno Butto é um artista singular. Italiano, nascido em 1957, começou a expor seu trabalho em 1993. Sua temática, inspirada na arte sacra europeia, dialoga também com um mundo onde Deus está morto. Na verdade, é recorrente a expressão de uma sacralidade da secularidade, da imanência em sua radicalidade, do absoluto como devir. A inspiração na arte sacra se estabelece portanto, de certo modo, como ironia. Mas não apenas nisso. Conceitualmente é exaltação da condição humana ausente de um destino eterno e metafísico que não seja propriamente ao da arte.avatar_medium_square

Nesse condição se justifica um elemento sombrio, decadente, demoníaco, mas também sensorial, corporal e erótico como transcendentes enquanto afirmação dessa condição original e secular. Afirmação que apenas se faz na arte, no corpo, na vida em seus impulsos cegos de desejo. É inegável certo diálogo com Nietzsche.  O corpo, mas também o sangue, como expressão de tal imanência radical. O vermelho portanto, constitui um cor com um simbolismo muito forte na arte de Buttó. É corpo, é sangue, é violência e erotismo, mas também, remetendo-se a ao sacro, também é sacrifício. O erótico e o sagrado como uma mesma unidade. Bataille e sua expressão do erótico talvez corresponda de igual modo a uma influência possível.

De qualquer forma, Saturno Buttó ainda é um enigma, um paradoxo. Ainda estamos no início do labirinto de sua obra.

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Reificação Trágica do Corpo

Em seu livro “O Nascimento da Tragédia”, Nietzsche estabelece como suspeita a “serenojovialiade” grega. Que a compulsiva necessidade pelo belo expressava antes uma ausência[1], velando um elemento trágico inerente à condição humana, que antes de ser negado, exigia uma afirmação. Enquanto herdeiros dos gregos, também possuímos a nossa “serenojovialidade”, ratificada no mito do progresso científico e no espírito democrático. A constatação da “morte de Deus” ou da impossibilidade de se justificar valores absolutos diante da vida, que é arte, optica, ilusão, significou conceder ao imediato e imagético uma condição totalitária, ou seja, torna-los absolutos e permanentes. Crítica feita ao paganismo por São Atanásio e a produção de demanda através da imagética feita pelo neoliberalismo segundo Debord.

Segundo Atanásio, desarticulado do mundo e de Deus, mas ainda neles. Essa é a condição desesperadora de uma humanidade que para garantir algum sentido em viver, torna absoluto o que é relativo, e por isso, vive radicalmente suas paixões. Essa é segundo Atanásio, a origem da idolatria. Sendo porém de origem ontológica, é inevitável que para o teólogo, todo homem seja naturalmente e universalmente um idólatra. Tornar absoluto o que é relativo, uno ao que é múltiplo, fazer do espiritual o que é sensível, isto é para Atanásio, criar um ídolo. Confusão de categorias, que Kierkegaard explora em sua definição de desespero e antes de Nietzsche, constatação ontológica originária, “paganizada” e estetizada dos homens.

Essa condição tornou-se totalitária no neoliberalismo segundo Guy Debord. O “espetáculo” segundo Debord, consiste na representação da vida por imagens, e a partir destas, de uma substituição, de maneira a se viver a vida por imagens e não por ela mesma, de maneira que o essencial não consiste mais em ser ou ter, mas em parecer ter. Exige portanto, um processo de reificação. Reificação dessa mesma condição estetizada que nada mais é do que afirmação do corpo, da vida. O mercado sobrevive justamente disso e é alimentada pela mídia.

Antes do mercado e da mídia, a arte expressa de maneira singular essa reificação do corpo. O surrealismo de Dali por exemplo, explorando bem o corpo e sua dimensão onírica, o concebe como perspectiva. E nisso ele pode assumir uma infinidade de dimensões. Essa reificação do corpo porém, é trágica, porque impõe um ideal de consumo disponível a muito poucos. É trágica porque ao impor a demanda, frustra enquanto possibilidade de realização. E nisso os ídolos sociais são criados. Expoentes de realização onde a massa se identifica pelo desejo e consome pela promessa. E sempre fracassa.

[1] Segundo Nietzsche essa compulsiva necessidade por beleza se estabelece porque a existência se justifica exclusivamente pela estética. A substituição da estética pela moral determinou uma espécie de “decadência” na cultura clássica.

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