Guy Debord em seu livro “Sociedade do Espetáculo” (Ed. Contraponto) tenta descrever basicamente como as relações sociais tornaram-se mediadas por imagens, e como esse recurso tornou-se totalitário, fundando uma nova estrutura para os valores. Que o ser fora substituído pelo ter e este por sua vez, pelo parecer ter. É nesse aspecto que a propaganda torna-se o maior instrumento de dominação, na medida em que cria a demanda e o desejo. A relação com as mídias sociais e a televisão são evidentes, contudo, menos evidente é a maneira como nossos valores são construídos nesse mundo estritamente midiático: aparência é fundamental para ser amado, e isto não basta. É preciso divulgar uma felicidade permanente que não existe. Casais que nunca brigam e gente que vive com dinheiro sobrando e rindo. É preciso certo pessimismo como forma de contestação, porque essa vida midiática no final das contas é só uma máscara, dada a muito poucos. Alguns, por justiça, acreditam na possibilidade de todos ganharem uma máscara, outros, que se acabe a festa de vez.

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“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”.

Invariavelmente, o espetáculo é em si, a expressão do fracasso da modernidade que sonhou educar os homens, de maneira a substituir-lhes todo afeto por uma razão universal e abstrata. Segundo Maffesoli em seu “Homo Eroticus” (Ed. Forense. 2014), é no totalitarismo da razão que se estabelece toda espécie de barbárie, seja em nome de uma raça ou de um classe. Contudo, cabe ressaltar, postura assumida a fim de estabelecer um tipo de homem que não existe, negando o que o homem é, instituindo em seu lugar um projeto incerto e impositivo. É preciso aceitar o homem como ele é, isto é, transbordando em seus afetos, plural, cheio de contradições e conflitos, na linguagem de Maffesoli, erótico.

O espetáculo, ao inverter o projeto de modernidade, e não simplesmente abandoná-lo, torna a imagem instrumento absoluto para se conferir valor a experiência com o real, que passa a ser imediata, sensorial e pouco reflexiva. É possível definir essa relação como corporal, contudo, enquanto projeto, é ausente de liberdade. O espetáculo de Debord seria portanto, a condução dos corpos por intermédio de uma política totalitária da imagética, logo, da propaganda, que move o consumo compulsivamente. É o novo capitalismo que cria sua demanda através da produção do desejo pela sedução da imagem. E o desejo para dominar, precisa ser espetacular, imagético. E o corpo para dominar outro, precisa ser espetacular e utópico, que tenta adequar todos os outros corpos a padrões, que por serem inalcançáveis para uma multidão de compulsivos desejosos determina apena frustração, tristeza, depressão.

Imagem de Anthony Mirial.

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