Sexo também é política.

Aliás, a melhor, tendo em vista que com ele se vende qualquer coisa hoje em dia. Postura recente, adaptada aos novos tempos de neoliberalismo. O capitalismo sobrevive às custas da pornografia, do prazer ilimitado, do gozo irrestrito, divulgado e não mais dissimulado. Seja pela compulsão em ver e conhecer, em sentir ou dominar. Sempre para quem pode pagar. É o que propõe Dany Robert Dufour em seu livro Cidade Perversa: liberalismo e pornografia (Civilização Brasileira. 2013). Por outro lado, não tem a intensão de evocar moralismos de qualquer espécie: suspende o juízo, determinando um panorama histórico do liberalismo a partir da pornografia enquanto ideologia. Para tanto, considera toda a obra do marquês de Sade (1740-1814) o paradigma por excelência da sociedade do gozo sem medida. Antecedido pelo paradigmático sujeito do conflito em Freud (1856-1939) e antes dele, pelo sujeito do dever em Kant (1724-1804).

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Há desse modo uma história do amor próprio, discurso esse determinante para o mercado, cuja origem remonta a Agostinho em seu antagonismo entre o amor a Deus e o amor a si, entre transcendência e imanência, de maneira que amar a Deus equivale a um esquecimento de si pelo outro, enquanto o amor a si equivale a um esquecimento do outro e de Deus. Do ponto de vista político equivale dizer, o amor a Deus é virtuoso porque implica a um bem público, social, e o amor a si é vício porque determina apenas um bem particular, privado.

Dufour se questiona então como a filosofia puritana de Agostinho transvalorizou-se na filosofia puta de Sade. Identifica entre os jansenitas (movimento de inspiração agostiniana que assim como os calvinistas enfatizam a corrupção total da natureza humana), como aqueles que revisitando Agostinho, atualizarão seu pensamento, dentre os quais, a oposição entre o amor a Deus e o amor a si. Sendo a corrupção total, a natureza humana é radicalmente inclinada ao amor a si, ao vício. Entretanto, a experiência demonstra que é possível ser virtuoso (preocupar-se com o bem público) sem ser cristão, isto é, sem amar a Deus, que seria o mesmo que ser virtuoso (os gregos são um exemplo disso). Como ser virtuoso apenas, tendo como alternativa amar a si mesmo? Pierre Nicole, Jansenista de formação propõe em seus Ensaios de Moral (1671) um esclarecimento do amor próprio por intermédio da razão, isto é, um discernimento de seus reais interesses, logo, não o entregando a mera compulsão. Em suma, a compulsão conduzida pelo cálculo.

John Locke ao traduzir os Ensaios de Nicole, transformou amor próprio esclarecido em inofensivo. É nesse aspecto que a concupiscência e o gosto pelo lucro se justificam. Sendo assim, não se trata mais em reprimir as paixões, mas em estimulá-las, alcançando sua finalidade, fundamento de qualquer comunidade humana:

meya-culpa-jose-dalmeida-e-mari-flores{Segundo Nicole} quanto mais o indivíduo visa apenas o próprio interesse, mais se tornam uns dependentes dos outros, e mais resulta dai uma realidade superior capaz de transcender a aposta de cada um. Dos trabalhos que cada um realiza no seu canto, visando apenas o próprio interesse, resulta assim uma espécie de colmeia humana de organização perfeita” (pág.102).

Mandeville expressará as conclusões de Nicole em sua “Parábola das Abelhas”, demonstrando como “os vícios privados fazem o bem público e que a virtude condena uma grande cidade à pobreza e à indigência” (pág. 112).

Vício é satisfação pessoal e lucro dirigido ao bem comum.

Estava fundado o liberalismo, assim como o capitalismo. A liberação dos vícios tendo por fim o lucro. Em Adam Smith será evidente uma oposição sem solução entre o princípio altruísta e o princípio egoísta: ou se procura reduzir o amor próprio à simpatia ou se reduz a simpatia ao amor próprio. Segundo ele, para amar a si mesmo é necessário a estima dos outros. A simpatia pelo outro, portanto, sempre é interessada. Por outro lado, “encontramos formulações tendendo a mostrar que a simpatia pode corrigir um amor próprio excessivo. Entretanto, quando examinamos de perto esse segundo tipo de fórmulas, percebemos que elas jamais se referem ao rico que deveria moderar seus apetites” (pág.133).

A avidez compulsória do rico, no fim das contas, estimula a avidez compulsória de todos, na promessa de um mundo de consumo, proposta pelo mercado, que cria a demanda pelo estímulo. Chegamos a Sade e ao mundo contemporâneo, onde o liberalismo passa a assumir um novo comportamento.

A autenticidade de Sade, o destacando de seus predecessores, será de justamente contestar em toda sua obra uma teleologia do amor próprio, do egoísmo, o que significa radicalizar os interesses pessoais num tipo de perversão. Um tipo de dispêndio, pura gratuidade, segundo Bataille. Nesse aspecto, o outro simplesmente é objeto seriado, um simples órgão apenas, para a satisfação do algoz. Essa é a identificação que Dufour realiza entre Sade e o nosso tempo. Se antes o amor próprio determinava o interesse comum que tornava possível a comunidade (liberalismo), esse amor perdeu qualquer propósito, e principalmente, o bem público. Ele se perverteu. Vícios privados, são agora, também vícios públicos, sem cerimônia. Se antes indivíduos perversos eram responsáveis por uma cidade virtuosa, hoje, é a cidade que se perverte.

diiarte-todos-por-um“Assim é que, depois de terem exigido a privatização dos lucros, eles exigiram e conseguiram a socialização de suas perdas… se possível, com a preservação de suas vantagens abusivas (…) Quando a indecência assim se ostenta sem maquiagem, sem vergonha, estamos diante de fatos obscenos” (Pág. 20).

O liberalismo se tornou pornográfico à medida que justificou no domínio público a avidez sem medida, compulsória. É certo que essa avidez sempre existiu, contudo, limitada pelo espaço público, como na antiguidade onde o obsceno, o compulsório, era sempre reservado a um espaço privado, oculto. Hoje não mais.

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Um comentário sobre “A Cidade Perversa

  1. Pois é, essa análise vai totalmente de encontro ao que te dizia há pouco sobre o pós-moderno pós-pornô que vai na linha dos estudos alucinados (totalmente descolados da realidade e das lutas políticas que envolvem gênero, violência e opressão) da Beatriz Preciado e afins. Chegamos a tal ponto de uma sociedade tão doentia que naturalmente o seu sexo não poderia ser diferente. E pensar que a total exposição vai muito além de quaisquer fetiches individuais e tentativas sociais de romper com tabus sexuais. Sem dúvida que a sexualidade foi, é e creio que sempre será um espaço de disputas políticas. Excelente texto/reflexão.

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