Durante muito tempo a imagem do filósofo foi incorporada a certa posição de destaque, seriedade e ascetismo, de melancolia e pessimismo, afinal, seriam eles os primeiros a perderem a cabeça, acometidos por insanidade, solidão, incompreensão da maioria e morte prematura. Peter Sloterdijk em seu “Crítica da razão Cínica” defende uma dimensão fisionômica da filosofia. Que pensamento e corpo são inseparáveis. Desse modo, que todo pensamento crítico é oriundo de uma experiência de dor, de desconforto. Numa cultura onde a crítica tornou-se generalizada, a dor constitui uma experiência insuportável. Especificando assim, a falência do projeto de esclarecimento determinada por Kant. Falida desde o começo, partindo do pressuposto de que uma alma grandiosa ao habitar um corpo pequeno só pode estar de brincadeira com o mundo. Portanto, não pode haver nada sério na razão. E o fato de a levarmos culturalmente tão a sério, é fruto de uma estupidez sem tamanho.

downloadSe é pertinente dizer que o “espírito” procura o corpo adequado, então no caso de Kant o espírito precisa ter sido um espírito que sabia encontrar prazer em ironias fisionômicas e em paradoxos psicossomáticos – um espírito que, em um pequeno corpo seco, inseriu uma grande alma, sob costas curvadas, um caminhar ereto, e em um ânimo hipocondriacamente compulsivo, um humor sociável, tranquilo e cordial, como se feito para ser esfregado no nariz dos posteriores veneradores do vital e do atlético”

Peter Sloterdijk em “Crítica da Razão Cínica”. Ed. Estação Liberdade. 2012. Págs. 16-17.

Entretanto, segundo Sloterdijk, ambiguamente, embora cientes da falência de tal projeto, o levamos adiante. Tal empreendimento especifica antes, um certo cinismo da própria razão, e nesse caso, ao invés de esclarecidos, nos tornamos no final das contas, cada vez mais confusos e perdidos. Enlouquecidos. Existe por outro lado alguma alternativa contra a seriedade do filósofo e a loucura em que ele situou o mundo? Talvez, segundo o filósofo Romeno Emil Cioran (1911-1995):

O filósofo, desiludido dos sistemas e das superstições, mas ainda perseverante no caminho do mundo, deveria imitar o pirronismo de trottoir que exibe a criatura menos dogmática: a prostituta. Desprendida de tudo e aberta a tudo; esposando o humor e as idéias do cliente; mudando de tom e de rosto em cada ocasião; disposta a ser triste ou alegre, permanecendo indiferente; prodigando os suspiros por interesse comercial; lançando sobre os esforços de seu vizinho sobreposto e sincero um olhar lúcido e falso, ela propõe ao espírito um modelo de comportamento que rivaliza com o dos sábios. Não ter convicções a respeito dos homens e de si mesmo: tal é o elevado ensinamento da prostituição, academia ambulante de lucidez, à margem da sociedade como a filosofia. “Tudo o que sei aprendi na escola das putas”, deveria exclamar o pensador que aceita tudo e recusa tudo, quando, a exemplo delas, especializou-se no sorriso cansado, quando os homens são, para ele, apenas clientes, e as calçadas do mundo o mercado onde vende sua amargura, como suas companheiras seu corpo.

Emil Cioran em “Breviário da Decomposição”. Ed. Rocco. Pág. 86.

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