Segundo Nietzsche, nenhuma experiência humana, por mais transcendental que seja, se estabelece fora dos limites do corpo: “aumentar o corpo” consiste em ampliar os limites e horizontes pelos quais toda experiência é possível, exaurindo os recursos atribuídos aos sentidos. “Aumentar o corpo” consiste em explorar novas formas de sensibilidade e por isso, de riqueza da pluralidade da experiência humana como fim em si mesma. É inegável que um homem assim se encontre fora dos limites de qualquer tipo de convenção, posto que é imediatidade pura. Inversamente, há os que diminuem o corpo. Diminuem ao máximo até reduzi-lo a apenas um tipo possível de experiência, a do espírito. Um exercício próprio de qualquer ascese. Sendo a experiência do corpo mínima, e se toda experiência advêm do corpo, se fantasia um antagonista ontológico a ele, uma alma imortal, que de igual forma está relacionado à mesma experiência que possui o corpo de um cadáver. A crítica de Nietzsche está na falsidade dessa dicotomia. O “espírito” outra coisa não é senão também corpo, posto que também é invenção dele. O estabelecimento dessa dicotomia não tem outro fim senão a imposição de um poder, de uma vontade sobre o corpo de outrem.


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“Eu sou todo corpo e nada além disso; a alma é somente uma palavra para alguma coisa do corpo; o corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é, também, a tua pequena razão, meu irmão, à qual chamas ‘espírito’, pequeno instrumento e brinquedo da tua grande razão”

(Nietzsche em “Assim Falou Zaratustra”. Ed. Companhia das Letras. 2011).

Foto de Anton Belovodchenko em: http://iphotochannel.com.br/index.php/inspiracao/as-impressionantes-paisagens-corporais-de-anton-belovodchenko-nsfw/


A vida para Nietzsche é autoafirmação. Em todos os sentidos. Viver é autoafirmar-se. É nesse sentido, porém, que a vida também não pode separar-se do conflito. Apenas aquele que vive, luta. Isso torna o filósofo do martelo avesso a democracia. A igualdade é uma condição imaginária, ideal, e portanto, corrupta. Não se pode, portanto, falar em igualdade entre ricos e pobres, homens e mulheres, até porque não se pode falar nem ao menos em igualdade entre um indivíduo e outro. O valor está na força ou na fraqueza. Há homens “fortes” e homens “fracos”. Mulheres “fortes” e mulheres “fracas”. É por isso que Nietzsche beira a ambiguidade ao falar sobre política, gêneros, pessoas. Porque não aceita a noção de direitos para uma classe, mas apenas para indivíduos, isto porque, criar uma classe significa inserir os fracos em privilégios sem méritos. É um aristocrata.

A meu ver, me parece que em Nietzsche a temática da imanência radical do amor seja muito forte. Amor radical pela finitude. E nesse aspecto, tudo o que é transitório não pode ter um sentido (entendendo o termo como algo ideal, eterno, platônico, estabelecido). É preciso portanto, reconfigurar a ideia de finitude, a partir do que ela mesma é, ou seja, nada, que é a única coisa que temos. É preciso amar esse nada que nós somos. E por ser a única coisa que temos, é preciso amar esse nada radicalmente. E o que isso significa? Experimentar cada instante da vida lentamente e de forma intensa (intensidade está ligada a lentidão e não o inverso), tal como se experimentássemos um sabor novo e agradável ao paladar. Como se desejássemos a eternidade daquilo que sabemos que vai acabar.

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