Segundo Bataille, o erótico corresponde a uma necessidade psicológica por continuidade, independente da morte, nosso fim natural. Por isso, define o erotismo como “aprovação da vida até na morte[2]” ou seja “uma busca psicológica independente do fim natural dado na reprodução”[3]. Deve-se considerar portanto, uma relação entre a morte e a excitação sexual. A morte porque estabelece um termo a seres descontínuos, e a excitação sexual, fundamentada na necessidade psicológica por continuidade, eternidade. Sendo o erotismo um desejo de superação da morte, é possível remetê-lo a outras dimensões alheias ao simples desejo sexual: erotismo dos corpos, dos corações e o erotismo sagrado. Pois “nelas, o que está sempre em questão é a substituição do isolamento do ser, de sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda”[4]. Essa busca, de superação do domínio da morte e da descontinuidade entre os seres, se estabelece no domínio da violência.

Essencialmente, o domínio do erotismo é o domínio da violência, o domínio da violação (…). Se remetemos à significação que esses estados têm para nós, compreendemos que o arranchamento do ser à descontinuidade é sempre o mais violento. O mais violento para nós é a morte que, precisamente, nos arranca à obstinação que temos de ver durar o ser descontínuo que somos[5].

O erótico constitui um desejo de continuidade contra o ato violento da morte. Desejo este que apenas pode se estabelecer de igual modo, pela violência. A noção de sacrifício ganha destaque como elemento fundamental de toda atribuição erótica:

Insisto no fato de que o parceiro feminino do erotismo aparecia como vítima, o masculino como sacrificador, um e outro, durante a consumação, perdendo-se na continuidade estabelecida por um primeiro ato de destruição (…). Sofremos de nosso isolamento na individualidade descontínua. A paixão nos repete incessantemente: se possuíres o ser amado, esse coração que a solidão estrangula  formaria um só coração com o do ser amado. Ao menos em parte, essa promessa é ilusória (…) Se a união dos dois amantes é o efeito da paixão, ela evoca a morte, o desejo de assassinato ou de suicídio. O que designa a paixão é um halo de morte”[6].

Essa continuidade violenta estabelecida pela paixão, segundo Bataille é incognoscível, atingindo por isso, uma dimensão mística:

Com efeito, o que a experiência mística revela é uma ausência de objeto. O objeto se identifica à descontinuidade e a experiência mística, na medida em que temos a força de operar uma ruptura de nossa descontinuidade, introduz em nós o sentimento de continuidade[7].[8]

Essa dimensão mística do erotismo não pode ser separada de uma dimensão poética. É por isso, que termina a introdução do seu livro afirmando que “A poesia conduz ao mesmo ponto que cada forma de erotismo, à indistinção, à confusão dos objetos distintos. Ela nos conduz à eternidade, nos conduz a morte e, pela morte, à continuidade: a poesia é a eternidade”[9]. É justamente essa dimensão poética do erótico que nos traz de volta a vida desafiando o poder absoluto da morte, algo que recorda bastante o arquétipo dionisíaco de Nietzsche para a força invencível e eterna da vida. Afirma Bataille:

A aprovação da vida até na morte é desafio; tanto no erotismo dos corações quanto no dos corpos, ela é desafio, por indiferença, à morte. A vida é acesso ao ser: se a vida é mortal, a continuidade do ser não o é. A aproximação da continuidade, a embriaguez da continuidade dominam a consideração da morte. Em primeiro lugar, a perturbação erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de tal forma que as sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento. Então, para além da embriaguez aberta à vida juvenil, nos é dado o poder de abordar a morte face a face, e de nela ver enfim a abertura à continuidade ininteligível, incognoscível, que é o segredo do erotismo, e cujo segredo apenas o erotismo traz[10].

É inegável a influência sofrida por Nietzsche e Freud.

Em Nietzsche, Bataille se convence de que a vida é eterna enquanto força alheia ao indivíduo. Mas o indivíduo, enquanto situado pontualmente nessa continuidade, não pode se estabelecer nela sem conflito, em busca de sua continuidade pontual. O erótico constituiria uma alternativa, pois indicaria a busca da continuidade do ser pontual através de sua integração no ser total que a vida é. Essa transcendência apenas se estabelece com o outro, mas de forma violenta, conflituosa, contra a própria violência que a morte é.

Bibliografia

BATAILLE. George. “O Erotismo”. Ed. Autêntica. 2013.

NIETZSCHE. Friedrich. “O Nascimento da Tragédia”. Ed. Companhia de Bolso. 2007.

[1] Geoge Bataille, escritor francês (1897-1962) autor de obras cuja temática se voltam ao erótico, à transgrgessão e ao sagrado como “O Erotismo” e “História do Olho”.

[2] Pág. 35.

[3] Idem.

[4] Pág. 39.

[5] Pág. 40.

[6] Págs. 42-44.

[7] Em suma, querendo ser imortais e criando meios para a busca desse fim, na aplicação destes, sentimos em nós certa continuidade.

[8] Pág. 46.

[9] Pág. 48.

[10] Pág. 47.

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