A Terrível Beleza em Villem Flusser

Como é possível elaborar estruturas que comuniquem uma experiência singular e irrepetivel? Segundo Villem Flusser esse é o problema fundamental da arte, posto que compreende uma oposição entre a experiência singular do artista e a comunicação dessa experiência. Entretanto, trata-se segundo ele, de um falso paradoxo, de fazer da comunicação da arte uma representação do que não pode ser representado. Sua função, entretanto, seria de oferecer novas formas a um conteúdo que é estritamente particular.

O artista não está interessado em comunicar sua experiência singular, mas sim, propor novas formas para a experiência futura, enriquecendo assim a realidade, aumentando nossa informação sobre ela e por isso transvalorizando nossa compreensão do mundo. O belo portanto, seria a novidade de uma forma nova, ou até mesmo, de um modelo historicamente antigo que ainda não encontrou seu esgotamento na afirmação de novos paradigmas de comunicação da experiência singular do artista. Enquanto vigência do novo, a beleza é perigosa, terrível, na expressão de Flusser, pois derruba toda a arte anterior justificada em valores. É nesse aspecto que a arte é revolucionária.

A arte enquanto expressão de uma experiência singular e imediata, enquanto vivência, é comum a todos os homens e antecede qualquer juízo, seja da filosofia, da ciência ou da política. E portanto, não deve ser refém de nenhuma dessas categorias. Sendo assim, todo homem é um artista, simplesmente por existir. Contudo, deve-se distinguir o belo do agradável. A beleza expressa o novo da experiência singular do artista e está por isso isenta de julgamento, de uma compreensão. E sendo assim, constitui o terrível e o revolucionário. O agradável por outro lado, constitui a arte estabelecida numa compreensão, numa tradição, numa cultura. Constitui o antigo. A arte já em esgotamento. E por isso mesmo, massificada, hoje, principalmente por intermédio dos meios de comunicação.

Bibliografia

FLUSSER. Villem. A Arte: O Belo e o Agradável. In IANNINI. Gilson. “Artefilosofia”. Ed. Civilização Brasileira. 2015. Págs. 42-46.

Imagem. Pintura de Roberto Ferri. In http://academiadevenus.blogspot.com.br/2013_04_01_archive.html

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A Cidade Perversa

Sexo também é política.

Aliás, a melhor, tendo em vista que com ele se vende qualquer coisa hoje em dia. Postura recente, adaptada aos novos tempos de neoliberalismo. O capitalismo sobrevive às custas da pornografia, do prazer ilimitado, do gozo irrestrito, divulgado e não mais dissimulado. Seja pela compulsão em ver e conhecer, em sentir ou dominar. Sempre para quem pode pagar. É o que propõe Dany Robert Dufour em seu livro Cidade Perversa: liberalismo e pornografia (Civilização Brasileira. 2013). Por outro lado, não tem a intensão de evocar moralismos de qualquer espécie: suspende o juízo, determinando um panorama histórico do liberalismo a partir da pornografia enquanto ideologia. Para tanto, considera toda a obra do marquês de Sade (1740-1814) o paradigma por excelência da sociedade do gozo sem medida. Antecedido pelo paradigmático sujeito do conflito em Freud (1856-1939) e antes dele, pelo sujeito do dever em Kant (1724-1804).

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Há desse modo uma história do amor próprio, discurso esse determinante para o mercado, cuja origem remonta a Agostinho em seu antagonismo entre o amor a Deus e o amor a si, entre transcendência e imanência, de maneira que amar a Deus equivale a um esquecimento de si pelo outro, enquanto o amor a si equivale a um esquecimento do outro e de Deus. Do ponto de vista político equivale dizer, o amor a Deus é virtuoso porque implica a um bem público, social, e o amor a si é vício porque determina apenas um bem particular, privado.

Dufour se questiona então como a filosofia puritana de Agostinho transvalorizou-se na filosofia puta de Sade. Identifica entre os jansenitas (movimento de inspiração agostiniana que assim como os calvinistas enfatizam a corrupção total da natureza humana), como aqueles que revisitando Agostinho, atualizarão seu pensamento, dentre os quais, a oposição entre o amor a Deus e o amor a si. Sendo a corrupção total, a natureza humana é radicalmente inclinada ao amor a si, ao vício. Entretanto, a experiência demonstra que é possível ser virtuoso (preocupar-se com o bem público) sem ser cristão, isto é, sem amar a Deus, que seria o mesmo que ser virtuoso (os gregos são um exemplo disso). Como ser virtuoso apenas, tendo como alternativa amar a si mesmo? Pierre Nicole, Jansenista de formação propõe em seus Ensaios de Moral (1671) um esclarecimento do amor próprio por intermédio da razão, isto é, um discernimento de seus reais interesses, logo, não o entregando a mera compulsão. Em suma, a compulsão conduzida pelo cálculo.

John Locke ao traduzir os Ensaios de Nicole, transformou amor próprio esclarecido em inofensivo. É nesse aspecto que a concupiscência e o gosto pelo lucro se justificam. Sendo assim, não se trata mais em reprimir as paixões, mas em estimulá-las, alcançando sua finalidade, fundamento de qualquer comunidade humana:

meya-culpa-jose-dalmeida-e-mari-flores{Segundo Nicole} quanto mais o indivíduo visa apenas o próprio interesse, mais se tornam uns dependentes dos outros, e mais resulta dai uma realidade superior capaz de transcender a aposta de cada um. Dos trabalhos que cada um realiza no seu canto, visando apenas o próprio interesse, resulta assim uma espécie de colmeia humana de organização perfeita” (pág.102).

Mandeville expressará as conclusões de Nicole em sua “Parábola das Abelhas”, demonstrando como “os vícios privados fazem o bem público e que a virtude condena uma grande cidade à pobreza e à indigência” (pág. 112).

Vício é satisfação pessoal e lucro dirigido ao bem comum.

Estava fundado o liberalismo, assim como o capitalismo. A liberação dos vícios tendo por fim o lucro. Em Adam Smith será evidente uma oposição sem solução entre o princípio altruísta e o princípio egoísta: ou se procura reduzir o amor próprio à simpatia ou se reduz a simpatia ao amor próprio. Segundo ele, para amar a si mesmo é necessário a estima dos outros. A simpatia pelo outro, portanto, sempre é interessada. Por outro lado, “encontramos formulações tendendo a mostrar que a simpatia pode corrigir um amor próprio excessivo. Entretanto, quando examinamos de perto esse segundo tipo de fórmulas, percebemos que elas jamais se referem ao rico que deveria moderar seus apetites” (pág.133).

A avidez compulsória do rico, no fim das contas, estimula a avidez compulsória de todos, na promessa de um mundo de consumo, proposta pelo mercado, que cria a demanda pelo estímulo. Chegamos a Sade e ao mundo contemporâneo, onde o liberalismo passa a assumir um novo comportamento.

A autenticidade de Sade, o destacando de seus predecessores, será de justamente contestar em toda sua obra uma teleologia do amor próprio, do egoísmo, o que significa radicalizar os interesses pessoais num tipo de perversão. Um tipo de dispêndio, pura gratuidade, segundo Bataille. Nesse aspecto, o outro simplesmente é objeto seriado, um simples órgão apenas, para a satisfação do algoz. Essa é a identificação que Dufour realiza entre Sade e o nosso tempo. Se antes o amor próprio determinava o interesse comum que tornava possível a comunidade (liberalismo), esse amor perdeu qualquer propósito, e principalmente, o bem público. Ele se perverteu. Vícios privados, são agora, também vícios públicos, sem cerimônia. Se antes indivíduos perversos eram responsáveis por uma cidade virtuosa, hoje, é a cidade que se perverte.

diiarte-todos-por-um“Assim é que, depois de terem exigido a privatização dos lucros, eles exigiram e conseguiram a socialização de suas perdas… se possível, com a preservação de suas vantagens abusivas (…) Quando a indecência assim se ostenta sem maquiagem, sem vergonha, estamos diante de fatos obscenos” (Pág. 20).

O liberalismo se tornou pornográfico à medida que justificou no domínio público a avidez sem medida, compulsória. É certo que essa avidez sempre existiu, contudo, limitada pelo espaço público, como na antiguidade onde o obsceno, o compulsório, era sempre reservado a um espaço privado, oculto. Hoje não mais.

Pierre Fudaryli

Um adolescente de onze anos descobre a arte de Salvador Dali.

A partir dessa descoberta, passa a interpretar o mundo e significado das coisas, dentre elas, e principalmente, a condição humana. Surge o gênio de Pierre Fudaryli. Nasceu em 1984, no México.

tumblr_natt0mHMlj1qiaxfuo1_1280“não deve racionalizar o irracional, a ponte estreita entre admiração e medo é o que gera o choque visceral entre trabalho e espectador “.

Claro, Dali apenas oferece as primeiras bases conceituais para sua arte: de que a vida está fundada no absurdo. Mas isso não basta. O abuso de preto e branco oferecem uma atmosfera sinistra, pessimista, caótica em relação aos temas que aborda. Oferecem o medo. Seus contornos, frequentemente conjecturam uma projeção de futuro, mais uma vez, empréstimo do surrealismo. Um futuro de medo. É nessa perspectiva que estabelece os seus temas: o corpo feminino, o nascimento e a morte, a violência, o erotismo e o sagrado. Temática muito cara a Bataille por exemplo. As consequências dessa relação impressionam, se valendo como instrumentos pintura e fotografia digital.

8232527082_0e98714781_o“A visão periférica metafísica coagula conceitos em formas que se alimentam de simbolismos comuns para uma possível leitura de cada manifesto gráfico.”

Bibligrafia

http://www.fudaryli.com/

http://www.enkil.org/2012/11/30/pierre-fudaryli-cotidiana-geometria-mortal/

http://elhurgador.blogspot.com.br/2013/06/pierre-fudaryli-fotografia-arte-digital.html

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Filosofia do Deboche

Todo filósofo é um palhaço.

Exatamente porque toda sua sobriedade consiste justamente no esforço dedicado em alcançar uma verdade que apenas está em sua cabeça, e que ele considera idêntica ao peso do universo. Que o universo tem o peso de sua cabeça. É justamente nessa intensão que a filosofia perde qualquer legitimidade e se torna uma brincadeira, motivo de riso. Tem pretensão demais!

De que é feita a realidade?

Segundo o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), de pura ambiguidade. Claro, uma definição como esta não está isenta do conceito que ela mesma aplica, e nesse caso, a única resposta possível consiste justamente num “é impossível saber”. É justamente essa ignorância fundamental que estabelece o nascimento da filosofia socrática: o choque em reconhecer que não há em toda a existência um fundamento que a legitime, aquilo que Kierkegaard denomina o desespero humano.

Embora pareça muito triste, é possível contestar esse desanimador andamento das coisas: se o real é ambiguidade, qual seria a única linguagem possível de expressá-la? Obviamente que uma linguagem ambígua. Sendo assim, o conceito não pode ser o legítimo instrumento de um filósofo, daquele que reconhece que nada sabe, mas sim sua ironia (e até mesmo a poesia). O filósofo é por natureza um ironista debochado, cujo exercício retórico consiste em indagar seus contemporâneos a fim de descobrir se sua ignorância é apenas particular (cuja origem é apenas pouca informação) ou universal (que independe da quantidade de informação que temos).

“Posto que a tradição tenha vinculado à existência de Sócrates a palavra ironia, isto qualquer um sabe, mas dai não se segue, de maneira alguma, que todo mundo saiba o que é ironia. Além disso, se alguém, graças a um conhecimento íntimo da vida e das circunstâncias de Sócrates, chegou a formar para si uma ideias das peculiaridades dele, não tem, de jeito nenhum, um conceito completo do que seja a ironia” (Soren Kierkegaard em “O Conceito de Ironia”. Ed vozes. 1991. pág. 24)

“Ao contrário, a ironia é um ponto de vista novo, e, enquanto tal, absolutamente polêmico frete à antiga cultura grega, e aos mesmo tempo é um ponto de vista que constantemente se exprime e aí mesmo, ela é um nada que devora tudo, e um algo que jamais se pode agarrar, que ao mesmo tempo é e não é; mas isto é uma coisa cômica em seu mais profundo fundamento. Assim como a ironia derrota portanto tudo, ao ver em cada coisa a sua discrepância para com a ideia, assim também ela se situa abaixo de si mesma e contudo permanece nela” (Soren Kierkegaard em “O Conceito de Ironia”. Ed vozes. 1991. pág. 111).

Claro, esse tipo de exercício, próprio de crianças, de puro questionamento, não deixa nada em pé, pois convence que toda criação humana, é no fim das contas, pura arbitrariedade: leis, costumes, tradições de muitos séculos. Sem nenhum critério autenticamente absoluto, posto que não os tem disponíveis. Como consequência é preciso escolher entre o tudo e o nada. Sempre queremos alguma certeza que nos situe no mundo, e o chato do filósofo que a contesta sempre será levado a julgamento e à morte por isso.

No final das contas, melhor filósofo (ironicamente) é a criança. veja como são as coisas: as primeiras indagações de uma criança são “O Que é?”. Nós adultos respondemos ” O que é?” com ” Pra que serve?”.. É assim que nós ouvimos a pergunta da criança. Ela pergunta uma coisa e nós respondemos com outra. Isso é fruto de uma educação, de uma produção de consciência. nós aprendemos a substituir ” O que é?” com o “Pra que serve?” Durante toda a nossa a vida adulta todas as respostas vêm da utilidade das coisas. Mas ai envelhecemos, e quando isso acontece, a utilidade já não dá mais conta. É quando voltamos a questionar como uma criança.

HUGO WEAVING as V in Warner Bros. Pictures' and Virtual Studios' action thriller

Razão Cínica de Um Homem Enlouquecido

Durante muito tempo a imagem do filósofo foi incorporada a certa posição de destaque, seriedade e ascetismo, de melancolia e pessimismo, afinal, seriam eles os primeiros a perderem a cabeça, acometidos por insanidade, solidão, incompreensão da maioria e morte prematura. Peter Sloterdijk em seu “Crítica da razão Cínica” defende uma dimensão fisionômica da filosofia. Que pensamento e corpo são inseparáveis. Desse modo, que todo pensamento crítico é oriundo de uma experiência de dor, de desconforto. Numa cultura onde a crítica tornou-se generalizada, a dor constitui uma experiência insuportável. Especificando assim, a falência do projeto de esclarecimento determinada por Kant. Falida desde o começo, partindo do pressuposto de que uma alma grandiosa ao habitar um corpo pequeno só pode estar de brincadeira com o mundo. Portanto, não pode haver nada sério na razão. E o fato de a levarmos culturalmente tão a sério, é fruto de uma estupidez sem tamanho.

downloadSe é pertinente dizer que o “espírito” procura o corpo adequado, então no caso de Kant o espírito precisa ter sido um espírito que sabia encontrar prazer em ironias fisionômicas e em paradoxos psicossomáticos – um espírito que, em um pequeno corpo seco, inseriu uma grande alma, sob costas curvadas, um caminhar ereto, e em um ânimo hipocondriacamente compulsivo, um humor sociável, tranquilo e cordial, como se feito para ser esfregado no nariz dos posteriores veneradores do vital e do atlético”

Peter Sloterdijk em “Crítica da Razão Cínica”. Ed. Estação Liberdade. 2012. Págs. 16-17.

Entretanto, segundo Sloterdijk, ambiguamente, embora cientes da falência de tal projeto, o levamos adiante. Tal empreendimento especifica antes, um certo cinismo da própria razão, e nesse caso, ao invés de esclarecidos, nos tornamos no final das contas, cada vez mais confusos e perdidos. Enlouquecidos. Existe por outro lado alguma alternativa contra a seriedade do filósofo e a loucura em que ele situou o mundo? Talvez, segundo o filósofo Romeno Emil Cioran (1911-1995):

O filósofo, desiludido dos sistemas e das superstições, mas ainda perseverante no caminho do mundo, deveria imitar o pirronismo de trottoir que exibe a criatura menos dogmática: a prostituta. Desprendida de tudo e aberta a tudo; esposando o humor e as idéias do cliente; mudando de tom e de rosto em cada ocasião; disposta a ser triste ou alegre, permanecendo indiferente; prodigando os suspiros por interesse comercial; lançando sobre os esforços de seu vizinho sobreposto e sincero um olhar lúcido e falso, ela propõe ao espírito um modelo de comportamento que rivaliza com o dos sábios. Não ter convicções a respeito dos homens e de si mesmo: tal é o elevado ensinamento da prostituição, academia ambulante de lucidez, à margem da sociedade como a filosofia. “Tudo o que sei aprendi na escola das putas”, deveria exclamar o pensador que aceita tudo e recusa tudo, quando, a exemplo delas, especializou-se no sorriso cansado, quando os homens são, para ele, apenas clientes, e as calçadas do mundo o mercado onde vende sua amargura, como suas companheiras seu corpo.

Emil Cioran em “Breviário da Decomposição”. Ed. Rocco. Pág. 86.

Tudo é Corpo

Segundo Nietzsche, nenhuma experiência humana, por mais transcendental que seja, se estabelece fora dos limites do corpo: “aumentar o corpo” consiste em ampliar os limites e horizontes pelos quais toda experiência é possível, exaurindo os recursos atribuídos aos sentidos. “Aumentar o corpo” consiste em explorar novas formas de sensibilidade e por isso, de riqueza da pluralidade da experiência humana como fim em si mesma. É inegável que um homem assim se encontre fora dos limites de qualquer tipo de convenção, posto que é imediatidade pura. Inversamente, há os que diminuem o corpo. Diminuem ao máximo até reduzi-lo a apenas um tipo possível de experiência, a do espírito. Um exercício próprio de qualquer ascese. Sendo a experiência do corpo mínima, e se toda experiência advêm do corpo, se fantasia um antagonista ontológico a ele, uma alma imortal, que de igual forma está relacionado à mesma experiência que possui o corpo de um cadáver. A crítica de Nietzsche está na falsidade dessa dicotomia. O “espírito” outra coisa não é senão também corpo, posto que também é invenção dele. O estabelecimento dessa dicotomia não tem outro fim senão a imposição de um poder, de uma vontade sobre o corpo de outrem.


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“Eu sou todo corpo e nada além disso; a alma é somente uma palavra para alguma coisa do corpo; o corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é, também, a tua pequena razão, meu irmão, à qual chamas ‘espírito’, pequeno instrumento e brinquedo da tua grande razão”

(Nietzsche em “Assim Falou Zaratustra”. Ed. Companhia das Letras. 2011).

Foto de Anton Belovodchenko em: http://iphotochannel.com.br/index.php/inspiracao/as-impressionantes-paisagens-corporais-de-anton-belovodchenko-nsfw/


A vida para Nietzsche é autoafirmação. Em todos os sentidos. Viver é autoafirmar-se. É nesse sentido, porém, que a vida também não pode separar-se do conflito. Apenas aquele que vive, luta. Isso torna o filósofo do martelo avesso a democracia. A igualdade é uma condição imaginária, ideal, e portanto, corrupta. Não se pode, portanto, falar em igualdade entre ricos e pobres, homens e mulheres, até porque não se pode falar nem ao menos em igualdade entre um indivíduo e outro. O valor está na força ou na fraqueza. Há homens “fortes” e homens “fracos”. Mulheres “fortes” e mulheres “fracas”. É por isso que Nietzsche beira a ambiguidade ao falar sobre política, gêneros, pessoas. Porque não aceita a noção de direitos para uma classe, mas apenas para indivíduos, isto porque, criar uma classe significa inserir os fracos em privilégios sem méritos. É um aristocrata.

A meu ver, me parece que em Nietzsche a temática da imanência radical do amor seja muito forte. Amor radical pela finitude. E nesse aspecto, tudo o que é transitório não pode ter um sentido (entendendo o termo como algo ideal, eterno, platônico, estabelecido). É preciso portanto, reconfigurar a ideia de finitude, a partir do que ela mesma é, ou seja, nada, que é a única coisa que temos. É preciso amar esse nada que nós somos. E por ser a única coisa que temos, é preciso amar esse nada radicalmente. E o que isso significa? Experimentar cada instante da vida lentamente e de forma intensa (intensidade está ligada a lentidão e não o inverso), tal como se experimentássemos um sabor novo e agradável ao paladar. Como se desejássemos a eternidade daquilo que sabemos que vai acabar.

Claudia Rogge

Se você assistiu ao filme “Imortais” (dir. Tarsem Singh. Universal Picture. 2011) e suas cenas épicas de batalhas celestiais, onde uma multiplicidade de corpos brilham ao entrar em combate, é inevitável não reconhecer a influência nelas do trabalho de Claudia Rogge, uma artista alemã nascida em 1968.

“Ela trabalha com fotografia, instalações de vídeo e performance. Seus trabalhos fotográficos de grande escala impressionam o espectador com multiplicidade de detalhes de tecelagem em um padrão semelhante a de um caleidoscópio. Nós vemos uma quantidade infinita de corpos nus femininos que parecem fluir sobre as bordas do quadro, ou dândis adequados negros balançando hula-hoops, ou imagens idênticas infinitamente replicados. No processo de criação de uma tal composição milhares de imagens de cada figura são produzidos e compilado no seu conjunto com grande precisão e à iluminação e dimensionamento de cada detalhe.

O artista explora as relações entre o indivíduo e massas, onde se tem que enfrentar o mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo em sintonia os processos de globalização e unificação. As reflexões sobre este tema podem ser encontrados em outras obras do artista. Em sua ação bem conhecido “mob IL1” e “mob IL2”, um veículo especialmente construído atravessou cidades europeias chocando o público com o seu caminhão de vidro cheio de cabeças-de brinquedos do bebê de plástico no primeiro caso e ajoelhados figuras masculinas idênticas no segundo”.

Não sou crítico de arte ou cinema. Contudo, me impressiona a problemática do corpo que a sua arte produz. Evidentemente, não se trata apenas de corpo. Há ao seu redor uma circunstância elementar que o define numa atmosfera mística, apocalíptica ou idílica. Em todas essas circunstâncias, a profusão dos corpos, jogados uns contra os outros, de maneira erótica ou conflituosa. Na elementar relação entre os corpos apenas o amor ou a guerra. E dessa relação, ou o paraíso ou o inferno.

Bibliografia

http://www.frolovgallery.ru/en/works/rogge/rogge-biography

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O Eterno e o Transitório

Imagine.
Você está num avião.
Confortavelmente sentado em sua poltrona.
Pensando em seu destino, planejando no que irá fazer ao chegar lá.
Enquanto isso aproveita a viagem.
Alguns gostam de olhar as nuvens, outros por vertigem, preferem ler, ouvir música ou dormir.
Dentro de algumas horas, como planejado, tudo estará bem.
Inesperadamente um problema sério nos motores. Para evitar o pânico, belas aeromoças avisam que se trata de algo simples, fácil de resolver, que não há motivo para se preocupar.
O avião está caindo.
E você também.
Lentamente envelhecendo, e nem ao menos se dá conta disso.
Chega um momento em que é impossível deixar de notar, onde o tempo é curto e a distância que se tem do chão é mínima.
Em milésimos de segundos, instantaneamente você estará clinicamente morto.
Não dá pra pensar ou fugir. Contudo é impossível ignorar olhar para o chão.
Quando se torna impossível evitar o rumo ao desconhecido, olhamos para trás em busca de algum significado para o que virá.
Talvez isso seja o amor.
Conferir valor absoluto ao que está destinado a acabar com a morte.
Fazer eterno o que é transitório.
Uma espécie antecipada de saudade.

O Erotismo de Bataille

Segundo Bataille, o erótico corresponde a uma necessidade psicológica por continuidade, independente da morte, nosso fim natural. Por isso, define o erotismo como “aprovação da vida até na morte[2]” ou seja “uma busca psicológica independente do fim natural dado na reprodução”[3]. Deve-se considerar portanto, uma relação entre a morte e a excitação sexual. A morte porque estabelece um termo a seres descontínuos, e a excitação sexual, fundamentada na necessidade psicológica por continuidade, eternidade. Sendo o erotismo um desejo de superação da morte, é possível remetê-lo a outras dimensões alheias ao simples desejo sexual: erotismo dos corpos, dos corações e o erotismo sagrado. Pois “nelas, o que está sempre em questão é a substituição do isolamento do ser, de sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda”[4]. Essa busca, de superação do domínio da morte e da descontinuidade entre os seres, se estabelece no domínio da violência.

Essencialmente, o domínio do erotismo é o domínio da violência, o domínio da violação (…). Se remetemos à significação que esses estados têm para nós, compreendemos que o arranchamento do ser à descontinuidade é sempre o mais violento. O mais violento para nós é a morte que, precisamente, nos arranca à obstinação que temos de ver durar o ser descontínuo que somos[5].

O erótico constitui um desejo de continuidade contra o ato violento da morte. Desejo este que apenas pode se estabelecer de igual modo, pela violência. A noção de sacrifício ganha destaque como elemento fundamental de toda atribuição erótica:

Insisto no fato de que o parceiro feminino do erotismo aparecia como vítima, o masculino como sacrificador, um e outro, durante a consumação, perdendo-se na continuidade estabelecida por um primeiro ato de destruição (…). Sofremos de nosso isolamento na individualidade descontínua. A paixão nos repete incessantemente: se possuíres o ser amado, esse coração que a solidão estrangula  formaria um só coração com o do ser amado. Ao menos em parte, essa promessa é ilusória (…) Se a união dos dois amantes é o efeito da paixão, ela evoca a morte, o desejo de assassinato ou de suicídio. O que designa a paixão é um halo de morte”[6].

Essa continuidade violenta estabelecida pela paixão, segundo Bataille é incognoscível, atingindo por isso, uma dimensão mística:

Com efeito, o que a experiência mística revela é uma ausência de objeto. O objeto se identifica à descontinuidade e a experiência mística, na medida em que temos a força de operar uma ruptura de nossa descontinuidade, introduz em nós o sentimento de continuidade[7].[8]

Essa dimensão mística do erotismo não pode ser separada de uma dimensão poética. É por isso, que termina a introdução do seu livro afirmando que “A poesia conduz ao mesmo ponto que cada forma de erotismo, à indistinção, à confusão dos objetos distintos. Ela nos conduz à eternidade, nos conduz a morte e, pela morte, à continuidade: a poesia é a eternidade”[9]. É justamente essa dimensão poética do erótico que nos traz de volta a vida desafiando o poder absoluto da morte, algo que recorda bastante o arquétipo dionisíaco de Nietzsche para a força invencível e eterna da vida. Afirma Bataille:

A aprovação da vida até na morte é desafio; tanto no erotismo dos corações quanto no dos corpos, ela é desafio, por indiferença, à morte. A vida é acesso ao ser: se a vida é mortal, a continuidade do ser não o é. A aproximação da continuidade, a embriaguez da continuidade dominam a consideração da morte. Em primeiro lugar, a perturbação erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de tal forma que as sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento. Então, para além da embriaguez aberta à vida juvenil, nos é dado o poder de abordar a morte face a face, e de nela ver enfim a abertura à continuidade ininteligível, incognoscível, que é o segredo do erotismo, e cujo segredo apenas o erotismo traz[10].

É inegável a influência sofrida por Nietzsche e Freud.

Em Nietzsche, Bataille se convence de que a vida é eterna enquanto força alheia ao indivíduo. Mas o indivíduo, enquanto situado pontualmente nessa continuidade, não pode se estabelecer nela sem conflito, em busca de sua continuidade pontual. O erótico constituiria uma alternativa, pois indicaria a busca da continuidade do ser pontual através de sua integração no ser total que a vida é. Essa transcendência apenas se estabelece com o outro, mas de forma violenta, conflituosa, contra a própria violência que a morte é.

Bibliografia

BATAILLE. George. “O Erotismo”. Ed. Autêntica. 2013.

NIETZSCHE. Friedrich. “O Nascimento da Tragédia”. Ed. Companhia de Bolso. 2007.

[1] Geoge Bataille, escritor francês (1897-1962) autor de obras cuja temática se voltam ao erótico, à transgrgessão e ao sagrado como “O Erotismo” e “História do Olho”.

[2] Pág. 35.

[3] Idem.

[4] Pág. 39.

[5] Pág. 40.

[6] Págs. 42-44.

[7] Em suma, querendo ser imortais e criando meios para a busca desse fim, na aplicação destes, sentimos em nós certa continuidade.

[8] Pág. 46.

[9] Pág. 48.

[10] Pág. 47.

A Poesia é a Eternidade

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” A poesia conduz ao mesmo ponto que cada forma de erotismo, à indistinção, à confusão dos objetos distintos. Ela nos conduz à eternidade, nos conduz a morte e, pela morte, à continuidade: a poesia é a eternidade” (George Bataille em “O Erotismo”. Ed. Autêntica. pág. 48. 2013).